Profissionais de Saúde
Sexualidade, uso do
preservativo e direito reprodutivo

Valdi Craveiro Bezerra
Clínico de Adolescentes (Hebiatra), Psicoterapeuta, Terapeuta
de Família.
Coordenador do ADOLESCENTRO Centro de Referência, Pesquisa,
Capacitação e Atenção à Adolescência
e Família – DF
"Se trago as mãos distantes do meu
peito,
é que há distância entre intenção
e gesto."
(Fado Tropical – Chico Buarque & Ruy Guerra)
Apesar dos três temas do título possuírem
uma estreita correlação óbvia no discurso,
a maneira como nós, governo, profissionais e sociedade, agimos
em relação a cada um deles é de forma totalmente
dissociada e perigosa.
Entendemos a sexualidade como o exercício da vida com prazer.
Exercemos nossa sexualidade quando intencionalmente colocamos prazer
em nossas relações com o mundo e com nós mesmos.
O prazer é um ato intencional da subjetividade humana, o
qual consiste em dar um sentido e um significado específico
a uma sensação, que pode ser agradável, desagradável
ou neutra. No entanto, o prazer não se reduz a esta sensação.
Enquanto para alguns a sensação de queimação
intensa de uma pimenta malagueta pode ser uma experiência
extremamente desagradável, para outros a mesma sensação
se constitui num imenso prazer. O que diferencia as duas experiências
é o significado dado pelo sujeito da experiência a
esta sensação. Do mesmo modo, apesar do estupro ser
uma relação sexual, a vítima não exerce
sua sexualidade nesse momento. O prazer produzido em um relacionamento
sexual consensual parece até o momento não ter precedentes
comparativos, mesmo levando em conta seus efeitos colaterais. A
gravidez não planejada e as DSTs, tendo a aids como a mais
recente e mais temida, são seus efeitos colaterais mais comuns
e perseguem a humanidade até os dias de hoje. Enquanto o
homem paga o preço das DSTs, a mulher sofre com os dois.
A gravidez não planejada sempre foi o preço que a
mulher, casada ou não, teve que pagar pelo exercício
de sua sexualidade, ou, quando pior, por sofrer o exercício
da sexualidade do homem pela violência ou por seus "deveres
matrimoniais", o que de fato é a mesma coisa.
As tentativas para se evitar uma gravidez na história da
humanidade vão desde o coito interrompido, provavelmente
a maneira mais antiga, que mesmo interrompido era e continua sendo
pecado, passando por vários métodos de barreira, como
as primeiras camisinhas utilizando intestinos de animais, até
os métodos mais eficientes atualmente, como a camisinha de
látex, os contraceptivos orais e o DIU.
A camisinha, quando usada corretamente, isto é, sem falha
no uso e no acondicionamento, oferece uma proteção
de 99% contra a aids e de 100% para gravidez não planejada.
Considerando as possibilidades de ruptura e deslizamento intravaginal,
o uso da camisinha durante um ano oferece uma proteção
para a gravidez não planejada de 97% se usada de forma correta,
e de 86% se for usada sem muitos cuidados (Trussel e col, 2001).
Este mesmo autor calculou que a economia feita com o uso de camisinha
por ano por adolescente sairia em média de 946 dólares
para o setor privado e de 525 dólares para o setor público.
O custo anual calculado por adolescente para uma gravidez foi de
1.079 dólares e de 188 dólares com tratamento para
DST, num total de 1.267 dólares para o setor privado e de
677 dólares (541 para gravidez e 137 com tratamento para
DST) para o setor público. (Trussell e col, 1997a e 1997b).
A conclusão lógica é que o uso da camisinha
é seguro, eficiente e muito econômico para qualquer
governo que invista em seu uso, no entanto, tanto a gravidez quanto
a aids estão aumentando na faixa etária da adolescência.
Costumamos responsabilizar os adolescentes por estas taxas, sem
nos perguntarmos por nossa participação neste fenômeno.
Neste momento entramos no chamado direito reprodutivo, o que significa
que temos o direito de escolher se queremos ou não ter filhos.
Para garantir uma escolha ou outra, lançamos mão dos
métodos contraceptivos, e a camisinha é um deles.
Com isso fechamos o ciclo: sexualidade, uso do preservativo e direito
reprodutivo. Até agora parece uma simples lógica matemática,
mas a questão é que, em outras palavras, direito reprodutivo
quer dizer que nós, inclusive "nós adolescentes",
temos o direito de nos relacionarmos sexualmente sem termos que
pagar com uma gravidez não planejada ou uma doença
sexualmente transmissível pelo pecado de exercermos nossa
sexualidade. A questão é que, na verdade, não
concedemos esse direito aos nossos filhos adolescentes.
Se nossa preocupação como pais, profissionais de saúde,
educadores, governo e sociedade em geral fosse de fato evitar os
danos causados por uma gravidez não planejada ou uma DST/aids,
o uso da camisinha como solução para diminuir estes
enormes problemas de saúde pública deveria ser estimulado
e principalmente viabilizado. A camisinha deveria ser distribuída
segundo a necessidade de cada um, em todos os locais de encontros,
como as escolas, quartéis, locais de diversão, e principalmente
nos serviços de saúde.
Apesar das campanhas freqüentes para o uso da camisinha, nós,
profissionais da saúde, educação e governo,
sistematicamente desenvolvemos formas de distribuição
que são verdadeiras maratonas cheias de constrangimentos,
que parecem planos bem elaborados para afastarmos nossos adolescentes
do exercício de uma sexualidade protegida. Para um adolescente
obter 6 camisinhas, dependendo do serviço de saúde,
deverá marcar uma consulta com um médico ou enfermeira
e ser cadastrado, o que significa declarar que já está
tendo relacionamento sexual. Toda esta dificuldade criada é
justificada pela necessidade de fazer uma educação
sexual e de obter uma estatística. Esta desculpa, no entanto,
pode estar encobrindo a verdadeira razão dessa estratégia,
que é o controle ao exercício da sexualidade do adolescente.
Em agosto de 2003, o governo lançou um projeto dos Ministérios
da Educação e da Saúde para disponibilizar
camisinhas para colégios da rede pública de ensino,
que comprovarem que seus alunos já recebem educação
sexual. Imediatamente surgiram "profissionais" questionando
a distribuição, afirmando que isso seria um estímulo
à relação sexual desenfreada, ou que a distribuição
por si só não resolveria o problema, e outras asneiras
mais. Não duvidamos que a educação sexual seja
a estratégia mais importante e eficiente. A questão
é que a mesma não sai do papel há mais de 20
anos, pela mesma necessidade de controle da sexualidade do outro.
Com isso, criaram-se dois problemas. O primeiro é que alguns
de nossos filhos adolescentes, seguindo nossos passos iniciados
com o advento do contraceptivo oral na década de 60, já
saltaram do avião e já estão tendo relações,
queiramos ou não. Em plena queda livre, nós ficamos
discutindo sobre quem empurrou, se realmente era a hora de saltarem,
ou concluímos que está tudo errado e que não
deveriam ter feito isso, que deveriam ter tido aulas de pára-quedismo
antes. Nessa situação, o mais sensato e honesto que
temos de fazer é perguntar: "alguém sabe como
abrir um pára-quedas?". — Nossa obrigação
é garantir que nossos adolescentes cheguem são e salvos
até embaixo, e com eles vivos, sem danos, discutirmos todas
as outras opções. Em outras palavras, devemos proceder
com a distribuição de camisinhas de forma livre e
sem constrangimentos – o pára-quedas. O outro problema
diz respeito à turma que ainda não subiu no avião.
São os adolescentes que ainda não iniciaram sua atividade
sexual e, se continuarmos a não fazer nada a respeito, como
educação para um exercício saudável
da sexualidade sem problemas, inexoravelmente, ficarão na
mesma situação dos que já estão pulando.
No Adolescentro, disponibilizamos a camisinha na sala de espera
em uma caixa confeccionada para este fim, para quem quiser pegar
seu preservativo. Além dos adolescentes, os pais, mães,
tios, avós pegam camisinhas para outros filhos, sobrinhos,
netos e amigos. A cada dia somos gratos a essas pessoas maravilhosas,
nossos verdadeiros multiplicadores no combate contra a aids e a
gravidez não planejada, por fazerem nossa tarefa. Em nenhum
momento, nenhum pai ou mãe questionou nossa atitude. As únicas
reações contrárias a esta forma de distribuição
vieram dos profissionais. O mais interessante é que, com
este fornecimento de livre demanda, as questões sobre métodos
contraceptivos aumentaram em todas as consultas. Se um adolescente
faz da camisinha um balão de festa, de duas uma: 1) Este
ato é um ótimo indicador de uma dificuldade na sua
relação com ele mesmo e com o mundo, aí nós
podemos ajudá-lo, ou 2) será pura gozação
(merecida) sobre nossa maneira compulsiva de querer controlar a
sexualidade dos outros.
Referências bibliográficas:
TRUSSELL J, KOENIG J, ELLERTSON C, STEWART F. (1997a) Preventing
unintended pregnancy: the cost-effectiveness of three methods of
emergency contraception. Am J Public Health, Jun; 87(6):932-7
TRUSSELL J, KOENIG J, STEWART F, DARROCH JE (1997b) Medical care
cost savings from adolescent contra-ceptive use. Fam Plann Perspect,
1997 Nov-Dec;29(6):248-55, 295.
TRUSSELL J, WIEBE E, SHOCHET T, GUILBER E. (2001) Cost savings from
emergency contraception pill en Canada. Obstet Gynecol, May;97(5Pt1):789-93. |