Profissionais de Saúde
Assistência Integral
à Gestante HIV+
O atendimento em sala de espera

Equipe da Sala de Espera do Instituto de
Puericultura (IPPMG) da UFRJ:
Iraína Fernandes de Abreu Farias (enfermeira)
Maria de Fatima Lago Garcia (psicóloga)
Regina Tirre Carnevale Mercadante (enfermeira)
Verônica Medeiros da Costa (nutricionista)
Virginia Helane de Almeida Ximenes (assistente social)
O atendimento à gestante com HIV+ iniciou-se
em 1996 no Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão
Gesteira (IPPMG), uma unidade da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ) que passou a ser uma das referências para o
Programa de Assistência Integral à Gestante HIV+ no
Estado do Rio de Janeiro. No programa atuam dois infectologistas,
um obstetra, duas enfermeiras, uma assistente social, uma nutricionista
e uma psicóloga. À exceção dos médicos,
os demais profissionais realizam também o atendimento de
sala de espera.
Em relação à estratégia proposta como
sala de espera, é importante destacar que a mesma ocorre
em um espaço físico restrito no Setor Materno Infantil,
onde as gestantes aguardam o atendimento.
Os encontros têm como objetivo trabalhar as informações
e vivências, pois consideramos que, a partir dos sentimentos
mais clarificados, há possibilidade de melhor absorção
das informações e conseqüentemente uma perspectiva
de adesão ao acompanhamento, visando evitar a transmissão
vertical.
No tocante à adolescência, cabe ressaltar que esta
é uma fase de mudanças e descobertas. Na busca de
sua identidade individual e grupal, os adolescentes vivenciam cada
vez mais cedo novos valores comportamentais relacionados à
afetividade e vida sexual que, associados à pouca valorização
para percepção de risco e o limitado acesso efetivo
às informações sobre sexualidade, DSTs, aids
e drogas, acabam tornando-os mais vulneráveis.
O despreparo dos serviços de pré-natal em oportunizar
um atendimento específico à gestante adolescente,
por diferentes justificativas, acaba retardando o início
do acompanhamento e conseqüentemente observa-se demora na realização
dos exames, dentre eles a testagem para o HIV. Como unidade de referência,
recebemos em média seis adolescentes por mês na faixa
de 14 a 18 anos para a confirmação de diagnóstico
de HIV. Não raro, no segundo ou terceiro trimestre de uma
gestação não planejada, não desejada
ou rejeitada pela família, isso quando há referência
desta e com agravante de não terem recebido adequado aconselhamento
pré e pós-teste HIV, como recomendado pelo Ministério
da Saúde.
Diante da confirmação do diagnóstico, é
oferecido à gestante o espaço do grupo como parte
do seu acompanhamento. Em nossos encontros, observamos várias
situações conflituosas a partir de colocações
feitas pelas adolescentes ou por seus responsáveis, que estão
relacionadas à: descoberta e aceitação do diagnóstico;
revelação do resultado ao companheiro e/ou familiares;
início do tratamento; uso do preservativo; sigilo; preconceito;
direitos e benefícios sociais; mudança dos hábitos
alimentares; lazer, drogas lícitas e ilícitas; os
horários da medicação; a impossibilidade de
amamentar; cuidados no pós-parto com o corpo; adesão
ao acompanhamento do recém nato; fortalecimento da cidadania
e perspectiva de futuro.
Constatamos, ao longo desses anos, a necessidade de atendermos as
adolescentes de forma diferenciada, considerando as particularidades
da fase vivenciada. Sendo assim, destacamos a importância
em priorizar cada vez mais o aconselhamento pré e pós-teste
HIV como marco inicial na trajetória do diagnóstico
e manutenção do acompanhamento em relação
à condição de ser adolescente, estar grávida
e com diagnóstico de HIV, como garantia da qualidade de vida
atual e futura. Porém, tal não ocorre conforme preconizado.
Cabe ressaltar a importância da construção em
equipe, de uma abordagem específica, levando em conta, entre
outros, os seguintes aspectos:
• Assegurar a
abordagem multiprofissional;
• Acolher desde o atendimento
inicial;
• Estimular o comparecimento de
um responsável no atendimento;
• Considerar as informações
prévias quanto à infecção do HIV/aids,
métodos contraceptivos, uso do preservativo etc;
• Esclarecer dúvidas mencionadas
e veladas;
• Sensibilizar o responsável
para o acompanhamento à adolescente na gestação
e pós-parto;
• Estimular o resgate do vínculo
familiar;
• Garantir sigilo;
• Orientar quanto aos cuidados
necessários ao recém-nato;
• Incentivar a continuidade do
acompanhamento da adolescente e da criança;
• Interagir com as coordenações
de áreas visando assegurar os fluxos de encaminhamentos precoces;
• Estimular a inclusão
em programas específicos à adolescência.
Devemos destacar que as reações
e sentimentos, mesmo estando a adolescente "assistida",
poderão estar fragmentados e suscetíveis às
interferências alheias, e suas expressões podem nos
levar à reflexão...
"O profissional me tratou como uma tábua
ao me falar do resultado do exame de HIV"
"Estou me sentindo um ET"
"Meu pai disse que estou bichada"
"Estou preocupada com o que eu vou falar quando me perguntarem
por que não estou dando o peito"
"Eu não sabia que estava fazendo esse exame"
"Você tem aids. Procure este hospital, aqui está
o endereço"
"Pensei que ia morrer no dia seguinte"
"Aqui é o único lugar que posso conversar,
só tenho vocês pra falar sobre isso..."
Acreditamos que o trabalho em equipe que valoriza
as atividades em grupo nas discussões sobre a infecção
pelo o HIV junto às adolescentes proporciona novas reflexões
sobre a prevenção, para uma qualidade de vida melhor.
O grupo de sala de espera revela-se um espaço promissor como
estratégia educativa e terapêutica, pois possibilita
o trabalho em equipe e a caminhada para a atuação
interdisciplinar. |