Profissionais de Saúde
Trabalhar com adolescentes
soropositivos
Alegrias e problemas

Maria Lúcia Araújo
Presidente da Sociedade Viva Cazuza
Ao nos envolvermos com este trabalho junto a crianças
soropositivas, tínhamos uma única certeza: vontade
de trabalhar.
Conviver diariamente com estas crianças há 10 anos
é uma fonte inesgotável de vida, amor e aprendizado.
Conseguimos, juntos, formar uma família de moldes diferentes,
mas com quase todos os elementos emocionais incluídos nessa
palavra ou conceito. Todas as crianças abrigadas são
originárias de famílias carentes e, muitas vezes,
provenientes de outros abrigos, antes de chegar até nós.
A desintegração do vínculo familiar é
fator com o qual temos que trabalhar e sempre que possível
resgatar. A chegada de uma criança, na maioria das vezes
com saúde debilitada, é sempre uma aula de solidariedade.
Preocupação e cuidado fazem com que se sintam "em
casa e parte da família".
O avanço na descoberta de novos medicamentos possibilitou
maior e melhor qualidade de vida. Conseqüentemente, começaram
nossos problemas e preocupações com as crianças
crescendo e se tornando adolescentes. Chegou a hora de trabalhar
a prevenção entre eles, afinal estamos no lugar de
seus pais. É isso que estamos fazendo nos últimos
anos, nem sempre com sucesso, mas sempre com boa intenção.
Se com os nossos próprios filhos já é difícil,
com uma criança com aids em uma instituição
é duas vezes mais; mas é um desafio maior também.
Procuramos deixar que sonhem seus sonhos e vivam suas vidas e torcemos
para que as orientações que demos surtam o efeito
desejado.
Apesar de tudo, somados ao desgaste emocional e gasto financeiro,
achamos que vale a pena. Enquanto isso, trabalhamos arduamente,
vivendo basicamente dos direitos autorais, legado de Cazuza, que
nos deixou bem mais que discos, boas músicas e poesia. Ficou
a coragem de quem, encarando a aids, favoreceu milhões de
soropositivos na luta por respeito e contra o preconceito. |