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de Saúde
Jovens em situação
de rua: Desafio para a prevenção

Verônica de Marchi
Psicóloga e Coordenadora do CAPS de Itajaí/SC
Num passado não tão distante assim,
a rua como lugar de brincadeiras e aventuras fez parte da infância
de muitos de nós. Este espaço de práticas antigas
e tradicionais em nossa sociedade é um local de sociabilidade,
sobrevivência e trabalho para crianças, jovens, famílias
entre outros.
No entanto, a utilização da rua como espaço
para aquelas crianças e adolescentes excluídos ou
que se excluem, os transforma em "meninos de rua", "infratores",
"drogados" e inúmeros adjetivos que associam sempre
à pobreza e à marginalidade.
Pelo perigo que simbolicamente esta situação representa
para a sociedade, desde o final do século passado, vimos
o surgimento de políticas sociais e regulamentações
jurídicas com o objetivo de disciplinar esses meninos e meninas,
vistos até hoje, pela maioria da sociedade, como possíveis
agentes da desordem e das crises nacionais.
Na década de 80, com o Estatuto da Criança e do Adolescente,
crianças e adolescentes, até então classificados
como em "situação irregular", passam a ser
considerados sujeitos de direito, com prioridade absoluta na garantia
desses direitos. Mas a realidade ainda é outra. O que presenciamos
atualmente é um aumento progressivo dessa população,
cujas garantias, prometidas pela Constituição, não
saíram ainda do papel e, como afirma Dimenstein, o direito
de se viver decentemente ainda é proibitivo para muita gente.
Diante desse retrato, que aos poucos vem sendo modificado pela atuação
de movimentos sociais, de pesquisadores, de setores comprometidos
com a infância e juventude e pela esperança de que
o país encontre realmente seu caminho para uma sociedade
mais justa, ainda há muito a construir e refletir sobre as
nossas práticas e políticas sociais.
Buscando desenvolver um trabalho que levasse em conta a situação
de abandono destes jovens, inauguramos em 2000, no município
de Itajaí/SC, o CAPS - Centro de Atenção Psicossocial
a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade
às drogas, violência e DST/aids, que tem por objetivo
a promoção da saúde física e mental
dessa população.
O maior desafio a que nos propomos é o de estabelecer uma
metodologia que, fundamentada numa visão de sociedade, de
homem, de vida e mesmo de uma educação, possibilite
um reconhecimento do universo desses jovens de forma a resgatar
sua auto-estima e conseqüentemente vislumbrar oportunidades
de construção de um projeto de vida. E como realizar
este percurso com adolescentes marcados por situações
extremadas de risco e violência? Como trazê-los, espontaneamente,
para um espaço de opções mais saudáveis?
O CAPS não é somente um centro de atendimento, é
antes de tudo um centro de atenção. Estar atento significa
estar o tempo todo comprometido com o receber, com o escutar, com
o olhar, com o acolher o sofrimento destes adolescentes, que aparece
a todo instante, a qualquer momento. E todos ali presentes, da recepção
ao técnico, devem estar atentos.
Esta metodologia está fundamentada em princípios que
consideramos norteadores para o trabalho de prevenção
e assistência que desenvolvemos, tais como:
• A atenção à
criança e ao adolescente deve ser integrada e integral, realizada
por uma rede multidisciplinar e intersetorial de cuidados que promova
o desenvolvimento físico, mental e social dessa população;
• A estruturação
de vínculos saudáveis como instrumento primordial
de trabalho com crianças e adolescentes permite a adaptação
ativa à realidade e uma retroalimentação dialética
entre o sujeito e o meio, promovendo mudanças nos padrões
comportamentais e afetivos e fortalecendo a estruturação
da identidade individual e grupal.
• A vulnerabilidade ao consumo
e abuso de SPA e as DST/HIV/aids exige das intervenções
de prevenção e redução de danos, a compreensão
do contexto sociocultural de vida, das características biológicas
e psicológicas desses jovens, das questões de sexualidade
e gênero, de sociabilidade e grupos, além dos aspectos
psicofarmacológicos das SPA.
• A exclusão familiar,
escolar e social é o maior fator de vulnerabilidade à
saúde de crianças e adolescentes, decorrente: da situação
de miséria econômica em que vive grande parte da população
do Brasil; de práticas pedagógicas inadequadas às
demandas e necessidades desses jovens; da falta de instrumentos
técnicos e de vontade política para implementação
das diretrizes de atenção propostas pelo Estatuto
da Criança e do Adolescente/ECA; e da carência de uma
verdadeira REDE de serviços de saúde, assistência
social, educação e de Organizações da
Sociedade Civil que promova a saúde física, mental
e a cidadania desses pequenos brasileiros.
Crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade
social são seres plenos de potencialidades, e, nesse sentido,
a prevenção e a redução de danos à
saúde devem estar orientadas pelo desenvolvimento e fortalecimento
dessas habilidades e competências.
A adolescência, como momento crucial e característico
do desenvolvimento humano e pelo seu caráter de transição
biológica e psicossocial, leva o indivíduo a viver
conflitos internos e externos na construção de sua
identidade individual e grupal, na busca de vivências afetivas
e de prazer, de sua independência econômica, do questionamento
de valores e normas familiares e sociais. Todo e qualquer programa
e ação de prevenção e assistência
deve considerar, portanto, além das características
de desenvolvimento do adolescente, seus valores, crenças,
costumes e práticas individuais e grupais, sua linguagem
e simbologia.
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