Profissionais de Saúde
Pediatria ou ambulatório
de adultos
O espaço ideal para o adolescente soropositivo

Sidnei Pimentel
Infectopediatra do Ambulatório de Pediatria e Hospital-Dia
do
Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São
Paulo
Talvez um dos tópicos mais discutidos quando
se aborda a questão do atendimento ao adolescente soropositivo
é o espaço ideal para isso. Nesse momento, duas correntes
principais se distanciam: uma defende o seguimento em ambulatório
de pediatria, principalmente motivada pela questão do vínculo
como fator imprescindível para a aderência; a outra
é a favor do seguimento no ambulatório de adultos,
uma vez que os adolescentes não se sentiriam bem ao ser atendidos
num ambiente voltado para a pediatria, com brinquedos espalhados
e gravuras de bonequinhos nas paredes. Lembremos ainda que falamos
de uma população heterogênea: de um lado, as
crianças infectadas por transmissão vertical, acompanhadas
desde a infância e que adolesceram; de outro, aqueles adolescentes
que adquiriram a doença já nesta fase da vida através
de relações sexuais, uso de drogas ou por via sangüínea.
Em verdade, o espaço ideal para o seu atendimento seria aquele
especificamente criado para a clientela de adolescentes. Ou seja:
uma equipe multidisciplinar e interdisciplinar treinada para as
especificidades dos adolescentes, num espaço com características
especiais e atividades voltadas para aquela faixa etária.
Por "equipe multidisciplinar e interdisciplinar treinada"
se entende aquela formada por profissionais de diversas áreas
capazes de se inter-relacionar e abordar as questões específicas
surgidas na adolescência, como as dificuldades de adesão,
o sigilo do diagnóstico, o afloramento da sexualidade, a
lipodistrofia, o medo do preconceito e da discriminação
etc.
O espaço físico ideal seria aquele que não
lembrasse um ambiente infantil (uma vez que é comum no adolescente
o conflito entre manter e abandonar os hábitos e gostos "de
criança") e que possuísse outros ambientes além
do consultório em si, especialmente um espaço para
reuniões de grupos de discussões, onde pudessem ser
abordadas questões relativas ao processo da adolescência
em si, à promoção de saúde, bem como
outras questões relacionadas à soropositividade, permitindo
um intercâmbio de informações saudável.
Uma área de convívio social, com atividades culturais
e educativas que utilizem uma linguagem mais próxima daquela
usada pelos jovens no dia-a-dia, também seria bem vista (e
aproveitaria a tendência grupal comum nos adolescentes, de
forma construtiva). Nestes espaços seria fundamental poder
trabalhar a questão do apoderamento do adolescente em relação
à sua condição, desenvolvendo a aptidão
para o envolvimento com as questões sociais, aproveitando
também da natureza reivindicatória que comumente aflora
nesse período do desenvolvimento. A formação
de adolescentes soropositivos multiplicadores de informações
e participantes ativos de ONGs seria uma conquista importantíssima.
Na prática, é verdade, temos uma realidade social
e política que ainda nos limita a capacidade de aplicar todos
esses princípios, restando-nos a possibilidade de adaptarmos
os nossos serviços para oferecer, da melhor forma possível,
um atendimento com qualidade.
Um dos assuntos mais críticos relacionados à questão
do adolescente soropositivo atualmente é a adesão
ao tratamento. Diversos fatores influenciam essa adesão:
a dificuldade em raciocinar longe do hoje e agora, numa perspectiva
de futuro; a fantasia de que "comigo isso não acontece";
as atitudes de enfrentamento das condutas impostas e o afastamento
em relação aos pais, todas características
comuns no processo de mudanças que é a adolescência.
Nesse momento, o vínculo entre o profissional do serviço
de saúde (médico/a, enfermeiro/a, psicólogo/a,
etc), o cuidador e o paciente é de fundamental importância
para a superação dos obstáculos "naturais"
que surgem.
Em termos práticos, então, e levando em consideração
a adesão como um fator indispensável para o sucesso
do processo terapêutico, poderíamos dividir os adolescentes
com relação ao momento de chegada ao serviço
de saúde para definir o ambulatório ideal para seu
seguimento.
Os adolescentes seguidos desde a infância deveriam continuar
seu acompanhamento no ambulatório de pediatria, uma vez que
a mudança neste momento implicaria conflitos relacionados
à readaptação do adolescente/cuidador, confiança
na nova equipe, insegurança frente ao futuro etc, todas questões
que poderiam exercer influência nociva na adesão, muitas
vezes comprometendo um trabalho que vinha sendo feito com aquele
paciente/cuidador. Em algum momento do futuro, esses pacientes terão,
obviamente, que deixar o serviço de pediatria, porém
acredito que este processo deva ocorrer de forma lenta e gradual,
estabelecendo, ao menos de início, um acompanhamento em paralelo
como forma de adaptação.
Aqueles adolescentes com infecção recente e que iniciam
o acompanhamento nesta fase provavelmente se beneficiariam ao serem
seguidos no ambulatórios de adultos. Certamente esses jovens,
baseados na crença errônea de que já venceram
os "ritos de passagem" para a vida de adulto (o início
da atividade sexual, por vezes a paternidade/maternidade e o uso
de drogas) teriam grandes dificuldades de adesão a um serviço
de pediatria.
Isso não exclui, obviamente, que esses ambulatórios
sejam serviços de pediatria ou de adultos, tenham que se
preparar para oferecer serviços voltados especificamente
para estes "novos" clientes. Ou seja, como já citado
anteriormente, uma equipe multidisciplinar e interdisciplinar treinada
para suas especificidades e capaz de desenvolver atividades voltadas
para aquela faixa etária.
Apenas entendendo o adolescente como um indivíduo que vive
um processo de evolução normalmente conturbado e oferecendo
a ele suporte para crescer e se desenvolver adequadamente, teremos
um paciente capaz de entender, aceitar e participar do seu tratamento
de forma satisfatória, ou próxima ao ideal. |