| Circulador
O ciclo da participação
comunitária
Profissionais
apostam na coletividade para melhoria
da qualidade de vida

Enxergar oportunidades em locais não
óbvios e apostar em ideias de pessoas comuns.
Estas são as principais características
da estratégia defendida por muitos governos para
enfrentar situações desafiantes: a participação
comunitária. No Rio, o envolvimento de moradores
em ações que visam ao melhoramento de
comunidades tem sido possível por meio da formação
de redes que buscam qualidade de vida, cidadania, consciência
política e compartilhamento de responsabilidades.
“A ‘consciência coletiva’ prevalece
quando existe espaço democrático para
que todos opinem e atuem para decidir os destinos da
comunidade”, afirma Oscarino Barreto Jr, médico
da família e da comunidade da unidade de saúde
de Nova Brasília, vinculada à Secretaria
Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro
(SMSDC-RJ).
Comitê Gestor de Nova Brasília
A comunidade de Nova Brasília, no Complexo do
Alemão, onde Oscarino atua desde junho de 2005,
é um grande exemplo de parceria entre população
e profissionais da saúde. Lá, um Comitê
Gestor formado por representantes da comunidade, da
associação de moradores e por profissionais
atuantes na Estratégia Saúde da Família
assessora e acompanha as ações de saúde
locais, atuando diretamente na melhoria da qualidade
de vida da população.
Uma das prioridades eleitas pelos moradores, discutida
no Comitê, era solucionar o acúmulo de
lixo nas ruas da comunidade – desastroso para
o meio ambiente e para a saúde pública.
“A Comlurb não consegue recolher o lixo
de algumas áreas por conta de dificuldades de
acesso. Depois de alguns problemas, como o alagamento
de várias casas devido à enchente de janeiro
de 2006, provocada pela obstrução das
galerias de drenagem de água e esgoto pelo lixo,
os moradores reconheceram a importância de encaminhar
seus resíduos para reciclagem”, aponta
Oscarino.

Saúde na Escola também investe em participação
Garantir a participação ativa da comunidade
na área da saúde, educação
e assistência social também é objetivo
do Programa Saúde na Escola, da SMSDC-RJ. Em
parceria com a Estratégia Saúde da Família,
o Programa desenhou a formação de dez
núcleos regionais intersetorias de referência
do Programa Saúde na Escola e na Creche, divididos
de acordo com as áreas programáticas do
Rio de Janeiro.
Além de representantes das secretarias e de gestores,
os núcleos são formados por profissionais
da escola e creche e dos serviços de saúde.
Juntos, eles promovem em suas comunidades ações
relacionadas à temática de saúde
e educação.
“Nós queríamos uma articulação
central, regional e local, para assim fortalecer o programa
e estabelecer o envolvimento de todas as pessoas relacionadas
a ele. Nossa proposta não é fazer um programa
para a escola e para a creche, mas com a escola e com
a creche”, sustenta Carlos Silva, coordenador
do Programa Saúde da Escola da SMSDC-RJ.

A noção de territorialidade
Para chegar a este nível de articulação,
o Programa Saúde na Escola apostou forte na noção
de territorialidade – base da participação
comunitária e da promoção da saúde.
“É preciso entender que o território
tem uma dinâmica própria”, afirma
Carlos. “Com as visitas aos núcleos, percebemos
que cada área tem o seu tempo, cada espaço
tem a sua necessidade.
Os processos são diferentes”, completa.
O coordenador da Estratégia Saúde da Família
no município do Rio de Janeiro, Gert Wimmer,
também aposta na territorialidade: “Trata-se
de ressignificar o espaço do território
favelado enquanto espaço de produção
de cultura, de subjetividade, de relações
legítimas, intensas e diferenciadas”. Ele
explica que a gestão está reforçando
a atuação dos agentes comunitários
de saúde como articuladores do território.
“Acreditamos no agente comunitário como
alguém apto à construção
de projetos, como um canal de permeabilidade de todas
as políticas públicas de uma prefeitura
para o território”, aponta Wimmer.
Óleo em sabão
Um dos produtos mais comuns na cozinha, o óleo
vegetal é matéria prima para a consciência
ambiental no PSF Jardim Cinco Marias, em Pedra de Guaratiba.
Quando lançado diretamente no ralo, na pia ou
no lixo, o ingrediente danifica o encanamento e polui
córregos, rios e o solo. Acumulado nestas superfícies,
o óleo impede a passagem de oxigênio e
luz e impossibilita a existência de vida. Na unidade
de saúde, o destino do produto é outro:
transformar-se em sabão.
Além de colaborar para a saúde do meio
ambiente, a iniciativa estabelece parceria – a
primeira vista nada convencional – entre comunidade
e serviço de saúde. No espaço do
PSF são realizadas oficinas para a fabricação
de sabão a partir da reciclagem de óleo
de cozinha. A ideia partiu da agente comunitária
de saúde Débora Vieira, que relembra uma
das atribuições de sua profissão:
“Promover educação em saúde
e mobilização comunitária, visando
a uma melhor qualidade de vida mediante ações
de saneamento e melhorias do meio ambiente”. Para
Débora, “a partir dessa atribuição,
a reciclagem de óleo vegetal tem um propósito
tríplice: gerar renda, preservar o ambiente e
melhorar a qualidade de vida”. Depois de dois
anos, a iniciativa tornou-se autossustentável.
“Muitas pessoas que já participaram das
oficinas não têm mais tempo para continuar
a atividade e compram o sabão produzido. Certa
vez, nosso produto foi a única opção
para uma família com escabiose, doença
parasitária popularmente conhecida como sarna:
não provocou alergia em ninguém e ajudou
a resolver o problema”, orgulha-se Débora.


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