Profissionais de Sáude
Adolescência
como oportunidade

Mário Volpi
Oficial de projetos do UNICEF no Brasil e
coordenador do Programa Cidadania dos Adolescentes
A visão predominante e estereotipada de
nossa sociedade sobre adolescência pode ser resumida na expressão
"aborrecência". Mais do que uma simples brincadeira
com a palavra, trata-se de uma visão fundada no olhar do
adulto sobre esta fase da vida. Um olhar preconceituoso que vê
o adolescente por aquilo que ele não é: não
é maduro, não é responsável, não
é paciente, não é obediente ...
Diversas explicações sobre esta fase da vida foram
construídas a partir da observação de aspectos
do desenvolvimento físico e psicológico do adolescente,
resultando numa visão reducionista da adolescência
como fase da explosão de hormônios, das tensões
e conflitos por afirmação da identidade, da inquietude
e da contestação dos valores dos adultos.
Ao observarmos a participação dos adolescentes nos
diferentes campos da vida social, percebemos que os aspectos citados
fazem parte da adolescência, mas não são toda
a adolescência. Fase da vida, com características específicas
de desenvolvimento, a adolescência está longe de ser
um problema como pode parecer a adultos e teóricos do tema.
Antes de tudo, a adolescência é uma grande oportunidade.
Oportunidade para o próprio adolescente, pois, em função
do seu desenvolvimento, sua capacidade de aprendizagem é
mais veloz e sua abertura para novas relações possibilita-lhe
transcender ao universo familiar. Como sujeito que vai ampliando
sua autonomia diante do mundo, o adolescente abre-se para novas
experiências, enfrentando desafios e propondo-se a participar
como parte da solução dos seus próprios problemas
e dificuldades.
Oportunidade para a família, que passa a ter um sujeito que,
além de demandar atenção e cuidados, pode contribuir
na tomada de decisões; ajuda na solução de
problemas; insere a família em novos contextos culturais,
artísticos e de lazer; e interage de forma mais crítica,
levando os pais e adultos a reverem suas atitudes, posturas e valores.
Toda a família cresce e evolui quando o adolescente encontra
nela um espaço de realização. O mito de que
a adolescência é uma fase de ruptura com a família
não se sustenta quando observamos o resultado da pesquisa
“A voz dos adolescentes” (Unicef, 2002), que demonstrou
que, entre diferentes formas de expressão, 95% dos adolescentes
afirmaram ser a família o seu principal espaço de
realização e de prazer, onde se sentem bem, onde buscam
apoio e onde se sentem valorizados.
A adolescência é também uma grande oportunidade
para a comunidade. Grupos de adolescentes fazendo teatro, música,
esportes, defendendo o meio ambiente, debatendo as questões
relativas à sexualidade, produzindo seus próprios
meios de comunicação, organizando ações
de voluntariado e assumindo responsabilidades nos grupos e associações
comunitárias dão vida às comunidades e constituem-se
em verdadeiros atores sociais capazes de modificar para melhor o
lugar onde vivem. São adolescentes comunicadores que, na
rádio comunitária, no jornalzinho que circula na escola
e no grupo de teatro que debate questões como a violência,
movimentam toda a comunidade com idéias novas e abordagens
diferenciadas para velhos temas, gerando uma dinâmica de descobertas
dos valores, da cultura, da história e das pessoas da comunidade
que, em geral, são esquecidas pela supervalorização
dos produtos culturais da sociedade de consumo.
A adolescência é também uma grande oportunidade
para as políticas públicas. A escola, os programas
de saúde, de assistências social, de trabalho, de cultura,
esporte e lazer, dentre outros, podem se transformar em espaços
de experiências profundas de cidadania, desde que sejam capazes
de favorecer o diálogo, a participação e a
presença dos adolescentes com seus saberes, desejos, sonhos
e vivências.
As experiências de participação de adolescentes
na gestão das políticas públicas como, por
exemplo, nos Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente,
demonstram que a simples presença de adolescentes nas plenárias
do conselho modifica a agenda, obriga a um debate mais objetivo
e pragmático e traz a discussão das políticas
públicas para o cotidiano de suas necessidades e direitos.
Portanto, os mais de 21 milhões de adolescentes brasileiros
representam uma grande oportunidade de desenvolvimento e mudanças
positivas para o país. Tratá-los como problema implica
reprimir todas as forças criativas e construtivas presentes
nesta fase da vida. Tratá-los como cidadãos, sujeitos
de direitos e atores sociais com uma contribuição
específica para a sociedade, contribuirá para fazer
um mundo melhor para todos. |