Profissionais de Saúde
O Outro lado da moeda

Teresinha C R Pinto
biomédica, pedagoga, presidente da APTA
e consultora da PN DST/AIDS/MEC
Penso na minha tarefa: escrever aos que, do lado
de lá, nos ajudam a transformar a vida das crianças
HIV+ em vidas cidadãs.
Como Profissional da Educação, chamo de lado de lá
o que me é desconhecido: não vivo, portanto não
conheço, o dia a dia dos atendimentos de emergência,
dos choros intermitentes, da angústia de colocar uma agulha
num bracinho já quase sem veia, no olhar de um adulto que
espera que o seu olhar lhe dê a certeza que ninguém
nesse mundo pode dar! Quando me coloco a tarefa de escrever a vocês
– mulheres e homens profissionais dos nossos serviços
de saúde – imagino que vocês tenham imagens e
pré-conceitos criados a partir da experiência que tiveram
de passar na escola: experiências prazerosas, ruins, desastrosas
enfim, experiências diversas que constroem a visão
de hoje do que somos nós, os educadores e educadoras e as
nossas escolas.
Assim, convido vocês a fechar os olhos e imaginar as cenas
que descrevo agora:
Cena 1
Atendo ao telefone. É Maria, diretora da Escola de Educação
Infantil X da cidade de São Paulo. Ela me diz que a mãe
de sua aluna Yara, de 5 anos, acaba de lhe contar que é soropositiva
e que a menina também é. Pede ajuda para lidar com
a questão porque nunca passou por essa situação
e não quer que mãe e filha se sintam discriminadas.
Em uma reunião na escola, oriento, tiro dúvidas, friso
a importância da confidencialidade do diagnóstico.
Noto no quadro da sala uma frase de Paulo Freire dizendo que escola
é lugar de gente feliz! Faço seis encontros de 8 horas
com todos os educadores e educadoras da escola sobre HIV, DST e
drogas. Ninguém fica sabendo que há uma aluna com
HIV.
Oriento a diretora a falar com o (a) médico (a) que acompanha
a criança a fim de que possam estabelecer contato e parceria.
Uma semana depois, a mesma diretora me liga estarrecida: quando
telefonou para o serviço de saúde, foi atendida pela
assistente do médico. Quando se identificou, ouviu de imediato:
"Olha, não pega, não tem perigo não adianta
querer transferir a criança, aqui a gente é muito
ocupado para ficar agüentando essa falta de informação
de vocês de escola...".
Dias depois, com a minha intermediação, serviço
e escola passam a se entender e a estabelecer uma admiração
mútua. Yara precisou de um aparelho de oxigênio portátil
para poder freqüentar a aula. A decisão de que seria
melhor estar na escola que em casa veio da diretora, o aluguel do
aparelho é pago pela APTA, e o transporte da garota, pela
escola.
Yara está feliz. Deixa o aparelho na escola ao ir embora
(tem outro em casa fornecido pelo serviço). Ao sair, beija
o tubo de oxigênio e nós choramos a cada lembrança
dessa cena...
Cena 2:
Paulo é uma pessoa soropositiva. Começa a namorar
Ana, que não tem o vírus. A coordenadora da escola
fica preocupada e liga para o serviço que atende Paulo, querendo
uma orientação. Ouve que precisa avisar aos pais de
Ana, pois ela é menor. Insegura, a coordenadora liga para
mim. Aconselho ela a falar com Paulo. Ela faz isso e ouve dele a
certeza que usará preservativo na hora do sexo.
Ela torna a me ligar e pergunta se pode confiar nele. Tenho vontade
de lhe perguntar se ele pode confiar nela, mas, ao invés
disso, marco um encontro onde conversamos longamente sobre o papel
de cada uma de nós nesse caso. Chegamos à conclusão
de que não podemos viver a vida de Ana e de Paulo por eles.
Como medir o grau de angústia e tensão que nossas
profissões carregam? Durante anos, e provavelmente ainda
será assim ainda por muitos mais, aprendemos a pensar em
compartimentos: saúde, educação, finanças
e assim por diante. De repente, chega uma enfermidade que nos mostra
nossa impotência e nossa força. Ao tempo que nos exaure,
nos desafia e nos estimula a fazer diferente, compartilhando e resignificando
nossas profissões. Aqui e ali, experiências animadoras
e apaixonantes da parceria entre serviço e escola, mas ainda
é aqui e ali.
Proponho, neste breve artigo, que façamos um pacto de estabelecer
de fato uma parceria que possa servir de orientação
de conduta em todo o país: ao saber que uma aluna ou aluno
é soropositivo, o educador deve entrar em contato com o serviço
que a (o) atende para que um trabalho em conjunto se estabeleça,
sem cobranças e pré-conceitos, mas cujo centro é
o bem estar da criança. Só o educador que convive
diariamente com essa criança ou adolescente, pode dizer ao
(à) médico(a) detalhes do desenvolvimento emocional
de seus alunos. Porém, somente sabendo de sua condição
sorológica, o profissional de educação poderá
identificar os distúrbios de aprendizagem causados pelo HIV
para que o profissional de saúde intervenha a tempo.
Os estudos mostram que as crianças que estudam têm
60% menos internações que as que não estudam;
isso certamente deve ter alguma importância. Isso deve servir
para o início de um pacto de confiança onde os dois
lados da moeda compreendam que não há moeda de um
lado só.
Viva a vida, que é fruta rara! |