Profissionais de Saúde
Tributo a um jovem
guerreiro

Juliana Martins de Mattos
Maria Helena Leite de Castro Mendonça
Psicólogas e Coordenadoras do Projeto ConvHIVendo
A epidemia de aids tem afetado cada vez mais os
jovens. Além disso, com o advento da terapia anti-retroviral
combinada e o acesso universal gratuito aos anti-retrovirais, o
número de internações hospitalares por infecções
oportunistas vem diminuindo significativamente e a sobrevida dos
pacientes pediátricos vem aumentando consideravelmente. Com
isso, muitas crianças estão se tornando adolescentes.
Diante disso, torna-se um grande desafio para os profissionais de
saúde e educação o atendimento a um número
cada vez maior de adolescentes, tanto no nível da prevenção
quanto da assistência.
O trabalho com adolescentes, desenvolvido pelo Projeto ConvHIVendo
– Projeto de Atendimento Psicológico a Crianças
e Adolescentes Portadores de HIV/aids, seus Familiares e Profissionais
de Saúde, no Hospital Universitário Gaffrée
e Guinle do Rio de Janeiro, desde 1995, favorece o encontro, a troca
de experiências, a criação de laços de
amizade, o resgate de sonhos e projetos de vida, vínculo
afetivo e sentimento de pertencimento entre os jovens pacientes
vivendo com HIV/aids.
Jovens que chegam ao Projeto infectados por transmissão vertical,
por transfusão de sangue ou por transmissão sexual.
Jovens com angústias, medos de revelar a seus pares que são
portadores e mais ainda do preconceito e da discriminação
experienciados por quem vive com aids. Os desafios de conciliar
tratamento, estudo e a inserção no mercado de trabalho
com a angústia de conviver com medicações difíceis
e de efeitos colaterais muitas vezes severos podem dificultar a
reconfiguração de seus sonhos e projetos de vida.
Esta é a história de T, um jovem que foi infectado
por transmissão vertical e descobriu-se portador aos 13 anos,
sozinho. Quando começou a freqüentar o Projeto ConvHIVendo,
era uma pessoa amarga, solitária, em nada acreditava e achava
que nada dava certo para ele. Pessimista, ficou conhecido no grupo
por seu estado de espírito sempre "do contra".
Se houvesse sol, preferia que chovesse, e se chovesse, melhor seria
se houvesse sol. Descrente dos homens e de Deus! Sua mãe
fora prostituta e usuária de drogas e bem pequeno o entregou
para que o pai e a avó paterna o criassem. T se ressentia
dessa atitude materna e não entendia o que lhe acontecera.
Cuidava da avó paterna e dele mesmo, – pois o pai tinha
problemas com álcool – sentia-se desamparado, desamado
e responsabilizava os pais por sua infecção.
Foi assim que T chegou ao Convhivendo! Convidamos para participar
das atividades desenvolvidas pelo Projeto. "Ah! Isso era muito
chato!", reclamava T, porque o grupo ainda começava
a se formar. Para motivá-lo a participar dos atendimentos
em grupo, as coordenadoras do ConvHIVendo introduziram uma nova
metodologia de atendimento, incluindo atividades externas.
A partir desse estilo de atendimento, T, devagarinho e desconfiado,
chegou ao grupo, que de forma carinhosa e brincalhona apontava para
seu mau humor.
O trabalho de grupo com os adolescentes intercalava então
atividades internas no Hospital e eventos externos – Cristo
Redentor, cinema, seguido de almoços, passeios em parques
de diversão, etc. T foi saboreando esses encontros, desfrutando
de cada momento, resgatando o sentimento de pertencimento, de calor
humano e amorosidade que vivenciava junto com o grupo de adolescentes,
os familiares atendidos pelo Projeto e a equipe interdisciplinar,
sabores por ele outrora desconhecidos. Foi se reconhecendo e se
validando como ser humano. E na vida, como na música de Almir
Sater e Renato Teixeira, T conheceu outras formas de viver... "Conhecer
as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs.
É preciso amor pra poder pulsar, é preciso paz pra
poder sorrir. É preciso a chuva para florir".
No grupo foi se afinando com seus pares e solidificando amizades.
Mas a saúde de T era muito frágil. A descoberta tardia
do HIV, o início do tratamento quando seu organismo já
não era capaz de responder tão bem aos medicamentos
e o contexto familiar adversos foram fatores decisivos para uma
perspectiva pouco otimista.
Os grupos de familiares e de adolescentes atendidos pelo Projeto,
a equipe médica, os enfermeiros, as coordenadoras do Projeto,
todos sofriam a cada recaída que T apresentava. O Projeto
ConvHIVendo e o grupo de familiares cuidavam e o acompanhavam quando
ele se internava. Havia um mutirão de solidariedade e de
afetividade entre os familiares, que passaram a cuidar de T.
Num determinado momento, T estava mais pessimista do que nunca e
tinha todas as razões para isso. Havia um desconforto físico
por conta de uma enorme úlcera na sua língua. T não
respondia bem às atuais medicações para o seu
tratamento. Nesse momento, a médica que o atendia iria viajar
(era um feriado longo) e telefonou para uma das coordenadoras falando
de sua preocupação com T, que estava muito deprimido.
Temia que seu estado emocional comprometesse ainda mais sua saúde.
Nesse dia de feriado o Hospital não funcionaria. A profissional
marcou com ele assim mesmo e realizou o atendimento no Parque Lage.
Momento difícil para ambos, paciente e profissional! O sol
refletia na imagem do Cristo Redentor e a profissional pedia inspiração
a Deus para esse atendimento decisivo. Teria que falar para T que
chegava o limite médico e farmacológico! Que havia
um limite para o tratamento dos homens, só não havia
limite para Deus. A profissional sabia que T em nada acreditava.
E assim, nessa conversa tão delicada foi possível
falar de espiritualidade, do religar-se à vida, e assim foi
se desenhando uma nova perspectiva para T. Começava uma grande
virada em sua vida, com a inclusão da espiritualidade no
seu cotidiano!
Seu tratamento era circundado de amorosidade por todos que o cuidavam,
gotas de afetividade perpassavam a vida desse adolescente. O grupo
criou uma rede de suporte emocional, começou a visitá-lo
e a sair com ele. A amizade se solidificou entre T e M, que passou
a ser o irmão que ele tinha, mas não sabia onde estava.
Sua saúde melhorava cada vez mais, apesar de seu CD4 ser
apenas 2. Ele não se internou mais e passou para uma escola
técnica federal! É um momento de celebração.
T passou a se considerar o bem-amado do hospital! Por ocasião
da premiação pela adesão ao tratamento, evento
instituído pelo Projeto ConvHIVendo para estimular os pacientes
a melhor se engajarem no tratamento, T ganhou o 1º lugar! Houve
sorteios de prêmios e T ganhou novamente! Para sua grande
surpresa, uma vez que não acreditava na sorte em sua vida.
T passou a sorrir, estava quase alegre, ainda resmungão,
claro, para não perder seu estilo!
Ao completar 19 anos, começou o seu processo de despedida
da vida. Sofreu surtos psicóticos, deixando todos em total
desalento. O grupo de adolescentes sofria, se entristecia com uma
nova internação de T.
Porém, quando todos estavam desesperançados, T se
recuperou novamente, e mesmo com menos de 1 de CD4 ele voltou a
freqüentar o grupo. Naquele momento, passou a ser cuidado por
seu pai! Aquele pai que esteve ausente por tanto tempo retomava
o tratamento do filho e passava a cuidar dele! Por mais um tempo,
pai e filho, juntos, percorriam o caminho da vida! T passou por
mais uma etapa. Como diz Ivan Lins:
"Desesperar, jamais
Aprendemos muitos nesses anos
Afinal de contas não tem cabimento
Entregar o jogo no primeiro tempo"
Após algum tempo, T voltou a se internar
e dessa vez foi levado à UTI. A médica que o atendia
disse às coordenadoras, que estavam de férias, que
continuassem os atendimentos a T, pois seria o momento da despedida,
ele não passaria de 24 horas. As psicólogas coordenadoras
começaram a atender T na UTI e perguntaram a ele o que gostaria
de resgatar, alguma coisa que ele deixou de dizer para alguém.
T disse que gostaria de estar com seu grande amigo M e também
que o aparelho de vídeo do Projeto fosse levado para a UTI
para que ele pudesse assistir os filmes "Homem Aranha"
e "O Senhor dos Anéis". Esse era o momento de talvez
poder atender seus últimos desejos e a psicóloga então
disse que quando ele retornasse à enfermaria, providenciaria
o vídeo. Disse isso por acreditar que enquanto houvesse vida
haveria esperança.
Para a surpresa de todos, T saiu da UTI, venceu uma infecção
generalizada e retornou à enfermaria. O vídeo foi
providenciado e ele pôde assistir todos os filmes que desejou.
Os amigos levaram algumas fitas e as psicólogas alugaram
os filmes que ele pediu, e ele pôde então assisti-los
todos!
Na semana anterior ao Carnaval, havia uma previsão de alta
para T e ele começou a fazer planos, mas uma pneumonia o
venceu. T partiu, assim como um dia todos nós partiremos,
porém antes descobriu o amor pela vida, conquistou amigos,
resgatou o relacionamento paterno, realizou sonhos, viveu muito
mais do que qualquer prognóstico médico. Viveu melhor!
Numa frase dita por ele: "O ConvHIVendo transformou minha vida.
Antes era de casa para o hospital. Agora eu tenho uma família".
O que T. não sabia era que ele transformou o ConvHIVendo,
humanizou um sistema de saúde e trouxe a certeza de ter valido
à pena para duas psicólogas coordenadoras ter criado
o Projeto ConvHIVendo, com amor e com afeto! |