Profissionais de Saúde
A experiência
da brinquedoteca do Gapa-Ba

Gladys Almeida1 e Isadora Oliveira2
1Psicóloga e coordenadora da Área de Promoção
dos Direitos Humanos do Gapa/BA
2Psicóloga da Brinquedoteca do Gapa/Ba
O lúdico, no contexto da aids, vem se revelando
como um componente auxiliar no processo terapêutico, uma outra
forma de cuidado que vai além da medicalização
da doença, que lida com o homem como um todo e com o que
ele tem de mais fundamental: a sua subjetividade. Através
desse viés, se constrói o caminho para a cidadania.
É fato que brincamos desde que nascemos. Brincamos com as
nossas mãos, com o seio materno, com o primeiro objeto que
se aproxime do nosso campo visual. E, por que será que insistimos
em continuar brincando? Se pararmos para refletir, cada um de nós
poderá enumerar várias respostas. Afinal, a atividade
lúdica permite que possamos nos desconectar por alguns minutos
ou segundos das tensões e aflições cotidianas.
Ela descontrai, nos aproxima das nossas emoções, nos
proporciona a descoberta, estimula a criatividade e permite fluir
o sorriso, dentre tantas outras respostas.
A atividade lúdica propicia a formação de conexões
associativas no cérebro, facilita o processo de elaboração
acerca dos acontecimentos da nossa vida cotidiana e daqueles que
podem vir para nós como algo traumático ou uma experiência
impactante: a primeira ida à escola, a injeção
no hospital, o barulho do motor no dentista ou, ainda, a perda dos
pais, a falta de moradia, a violência em casa e na rua ou
o lidar com um diagnóstico de sorologia positiva para o HIV.
Além disso, favorece a socialização, a superação
de desafios e o lidar com os limites impostos pela realidade.
Diante disso, desde 2000, o projeto Brinquedoteca – uma nova
perspectiva de atendimento para crianças pobres portadoras
do HIV/aids do Gapa-Bahia garante um espaço onde crianças
e adolescentes vivendo com o HIV ou de certa forma afetados pelo
vírus são acolhidos através de atividades lúdicas,
culturais e artísticas, oficinas de criação,
apoio psicológico, social e nutricional. É um lugar
que, desde a sua entrada, propõe uma nova perspectiva no
trato da aids, seja pelo encantamento proporcionado pelas cores
das paredes, pelos desenhos do painel logo à entrada ou pelo
clima de acolhimento e calor humano presente no lugar.
A Brinquedoteca do Gapa-Bahia surgiu voltada para o atendimento
infantil. Entretanto, com o passar do tempo, quem era criança
cresceu e aí nos vimos desafiados a criar um espaço
onde os adolescentes vivendo com HIV/aids ou afetados pelo vírus
pudessem ter garantido o direito ao desenvolvimento, às oportunidades
e à convivência com outros da sua idade. Um local onde
eles sejam escutados em suas demandas, onde possam compartilhar
seus momentos e ter uma posição ativa na vivência
de sua realidade e na busca de soluções para os desafios
com que se deparam.
O fato do espaço da brinquedoteca ser bastante flexível
tem ajudado bastante, permitindo que trabalhemos com adultos, crianças
e adolescentes, desenvolvendo atividades diversas de acordo com
as demandas e os desejos. Ela se propõe a assegurar às
crianças e aos adolescente um dos seus direitos fundamentais
– o direito ao brincar, ao desenvolvimento e às oportunidades.
Esses direitos, garantidos pelo ECA, são elementos-base para
a uma formação humana saudável, para o desenvolvimento
do pensar, da fala, da criatividade, do incremento da consciência
crítica em relação ao mundo e da vivência
das regras e os limites sociais.
Além disso, a sala (que parece encantada) tem se estabelecido
como uma referência não só para os cuidadores,
no sentido de que é um lugar seguro em que os garotos e garotas
têm o apoio de profissionais de psicologia, serviço
social, advocacia, das letras e das artes, mas para os próprios
jovens, que têm respeitados os seus anseios e, convidados
a conhecer o novo e a olhar o mundo com novos olhos, são
acolhidos em atividades para o desenvolvimento e o despertar de
suas habilidades. É um espaço que tem fortalecido
o estreitamento de vínculos de amizade, a emergência
de características pessoais de liderança e de expressões
de autonomia e solidariedade entre os adolescentes.
São realizadas oficinas de criação com sucata,
material colhido na natureza, máscaras artísticas,
barroterapia, criação literária, contação
de histórias, além do atendimento psicológico,
social e jurídico e encaminhamento para outros serviços
de apoio.
Como respostas, temos assistido à ampliação
do vínculo e do compartilhamento de idéias junto à
equipe médica do ambulatório de aids pediátrica
do Hospital das Clínicas, onde boa parte das crianças
e adolescentes é atendida; ao fortalecimento dos laços
entre técnicos e o público atendido; à sensibilização
da comunidade para a garantia dos direitos das crianças e
adolescentes; e, principalmente, à garantia do respeito a
direitos fundamentais do homem, como o direito ao desenvolvimento,
à dignidade e à igualdade.
Ademais, a Brinquedoteca desperta a capacidade para mobilizar voluntários
através da sensibilização pela causa, estimula
a espontaneidade das crianças e jovens, sensibiliza os cuidadores
em relação à importância do lúdico
e de freqüentar um espaço onde eles possam discutir
suas inquietações em relação ao cuidado
com a sua criança e adolescente. Além de ser um local
em que fervilham questionamentos e buscam-se soluções.
A Brinquedoteca do Gapa-BA se constitui como um novo paradigma para
a oferta de um suporte mais humano voltado para as crianças
e adolescentes afetados pela aids, posto que visa assegurar o brincar
como um direito fundamental. Nesse espaço, a criança
tem acesso ao mundo mágico dos jogos, dos livros, das bonecas,
da música, onde poderá ter despertado o seu potencial
criativo, suas idéias, sentimentos e autonomia para fazer
as suas próprias escolhas.
Acreditar e investir no brincar é um passo elementar para
que se possa ter uma atenção mais abrangente e humana
no trato das crianças e adolescentes infectados e afetados
pelo HIV/aids. Jovens que, muitas vezes, têm sido cerceados
deste direito em razão de variadas situações
de hospitalizações, adoecimento, orfandade, entre
outras tantas coisas. |