Profissionais de Saúde
Jovens usuários
de drogas
com e sob risco de HIV:
Lições de um programa de redução de
danos

Tarcísio Andrade
Médico, Psicanalista, Professor adjunto-doutor da Faculdade
de Medicina da Universidade Federal da Bahia.
Pesquisador e Coordenador da Divisão de Redução
de Riscos e Danos do Centro de Estudos e Terapia do
Abuso de Drogas – CETAD/UFBA
No Brasil, os usuários de drogas sob maior
risco de infecção pelo HIV, os Usuários de
Drogas Injetáveis (UDI), são, em sua maioria, do sexo
masculino e com média de idade em torno de 25 anos. Um estudo
realizado no Centro Histórico de Salvador, em 1996, mostrou
que 20% dos UDI HIV positivos tinham menos de 18 anos de idade e
uma taxa de infecção maior do que o restante dos entrevistados.
Esse dado, embora específico daquele local, chama atenção
para a maior vulnerabilidade dos jovens UDI às complicações
infecciosas decorrentes do uso de drogas. Tal fato tem como provável
explicação a menor autodeterminação
desses jovens diante dos adultos que os iniciam no uso injetável.
Os mais jovens, habitualmente, dispõem de menos recursos
para a aquisição de droga e, não incomum, as
conseguem por intermédio de um adulto que também disponibiliza
os equipamentos de injeção, muitas vezes já
utilizados por ele próprio.
Com a intensificação do consumo de crack no Brasil,
sobretudo na segunda metade da década de 90, tornou-se evidente
a grande vulnerabilidade das mulheres usuárias, sobretudo
as mais jovens e menos experientes, à infecção
pelo HIV e outras DST. Pelas mesmas razões apresentadas para
os UDI mais jovens, no universo do uso de drogas, as mulheres estão
habitualmente colocadas em situação de desvantagem
em relação aos homens, sobretudo aquelas mais jovens
e inexperientes. Não incomum, a aquisição do
crack se faz mediante a troca por práticas sexuais, que,
quando genitais, muitas vezes se dão sem a devida excitação
e conseqüente lubrificação vaginal, o que propicia,
pelo atrito, escoriações, sangramentos e maior risco
de infecção por HIV e outras DST. Em estudo recente
realizado pela Divisão de Redução de Riscos
e Danos do CETAD/UFBA entre 124 mulheres (idade ± 24 anos)
revelou 1.6% de infecção pelo HIV e 2.4% para Hepatite
C.
Ser jovem, sobretudo adolescente e usuário de drogas, reúne
duas condições socialmente desfavoráveis. Em
verdade, o adolescente não tem um lugar na nossa cultura
ocidental pós-moderna: fatos idênticos ocorridos com
adultos e considerados acidentes, entre adolescentes, não
incomum, são rotulados de imprudência e desatenção;
termos como "aborrecente" refletem a intolerância
dos adultos para os jovens nessa quadra da vida. Mas o que definitivamente
denuncia a falta de lugar do adolescente em nossa cultura é
a tão familiar frase dos pais para seus filhos "estude
para ser alguém na vida", o que significa que nesse
momento ele não é ninguém. Quando às
condições de jovem e usuário de droga se soma
a de HIV positivo, torna-se ainda mais difícil. Difícil
para o próprio portador, que, além do seu discurso
de contestação aos que o discriminam e o oprimem,
também carrega consigo esse mesmo discurso, se recrimina
por essas condições e sonha com um mundo adulto, de
realizações e de plenos direitos.
A não percepção pelos profissionais de saúde
dessas peculiaridades pode constituir fator de entrave na provisão,
e também na aceitação por parte do portador,
dos cuidados necessários à condição
de jovem usuário de droga e HIV positivo.
A grande contribuição dos princípios e práticas
das políticas de Redução de Danos na minimização
dos riscos e agravos decorrentes do uso de drogas — não
apenas das injetáveis, mas de toda e qualquer substância
lícita ou ilícita que altere a senso-percepção
do sujeito — está no respeito ao direito dos usuários
de drogas às suas drogas de consumo. Estendido esses princípios
a outros campos de práticas, seja na esfera pedagógica,
social ou da prevenção e assistência à
saúde, teremos como resultados ações mais sintonizadas
com as necessidades das populações e, portanto, muito
mais eficazes.
A adequada assistência à saúde constituída
na capacidade técnica, mas sobretudo na individualidade do
outro, visto em todas as suas potencialidades, condições
demográficas, culturais, comportamentos e atitudes, possibilitará
uma melhor percepção do jovem usuário de droga
HIV positivo. Desse modo, torna-se possível perceber os motivos
para a negação do estado de portador e ou doente com
aids, uma vez que, apesar dos avanços obtidos, torna-se muito
difícil nessa quadra da vida aceitar algo cuja solução
definitiva lhe foge ao controle. Do mesmo modo, o uso de drogas
que na maioria das vezes é para os usuários, independente
de idade, uma forma de automedicação, entre os jovens
HIV positivos, não incomum, se constitui em um meio de enfrentar
a adversidade e propiciar tranqüilidade, ânimo, melhora
do apetite ou mesmo disfarçar os efeitos da doença,
quando já manifestada e não adequadamente tratada.
Essa última condição tem sido observada entre
jovens HIV positivo fora de tratamento, que encontram no uso de
crack uma forma para disfarçar a anorexia e o desgaste físico
decorrente da doença. |