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Profissionais de Saúde

Revelação do diagnóstico e aconselhamento em HIV/aids


Débora Fontenelle1, Denise Serafim2 e Sandra Filgueiras3
1Médica Clínica Geral do Hupe-Uerj (núcleo de epidemiologia )
e Gerência de DST/Aids da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (SMS),
2 Assessora Técnica da Unidade de Prevenção do PNDST/Aids,
3 Psicóloga sanitarista da Assessoria Estadual de DST/Aids - SES/RJ

A prática do aconselhamento desempenha um papel fundamental no contexto da epidemia da aids e se reafirma como uma tecnologia de cuidado estratégico para o momento da revelação do diagnóstico do HIV e na promoção da integralidade na atenção à saúde.
O trabalho no campo da aids tem, por um lado, demonstrado a falência do modelo técnico-científico-normativo, prescritivo e coercitivo – que é insuficiente para atender as necessidades das pessoas que vivem e convivem com a aids. E, por outro lado, tem revelado o quanto faltam respostas no cotidiano dos profissionais de saúde, em especial no atendimento ao adolescente com HIV/aids. Com certeza, não teremos respostas para tudo, mas é importante entendermos o aconselhamento como uma tecnologia estratégica, que favorece o emergir de respostas indispensáveis para o processo de cuidado à saúde, à medida que o profissional estimula a autonomia e liberdade do adolescente para expressar suas questões, utilizando seu conhecimento para escutá-lo melhor e pensar com ele em como podem resolver o seu problema.
O aconselhamento é uma ação em saúde que implica a construção de uma relação de confiança mútua e o estabelecimento do diálogo "profissional – adolescente" e "profissional – família – adolescente". Prima pela utilização de linguagem acessível, pela confidencialidade e o respeito às diferenças e à cidadania. Desta forma, contribui para que temas relacionados à aids, difíceis e necessários de serem abordados, como sexualidade, morte, uso de drogas, tabus, estigma e preconceitos, fluam mais naturalmente.
As principais características do processo de aconselhamento são a ESCUTA e a TROCA. Escutando os anseios e medos do adolescente, reconhecendo suas crenças e valores, podemos conhecê-lo melhor. Do mesmo modo, trocando saberes, afetos e experiências, podemos perceber os limites e também as possibilidades que o adolescente tem para lidar com as adversidades do viver com o vírus da aids. O aconselhamento implica uma reflexão conjunta, na qual o adolescente é estimulado a participar ativamente e, junto com o profissional, encontrar recursos para o alívio do sofrimento físico e psíquico. Pressupõe o acolhimento do sofrimento que o adolescente traz e o entendimento de seu contexto de vida.
O momento da revelação do diagnóstico pelo HIV é uma situação crucial para o adolescente e pode gerar ansiedade e estresse para o profissional de saúde. A postura acolhedora do profissional no processo de aconselhamento contribui para uma melhor condução deste momento. Este processo implica CONHECER.

Quem é o adolescente com HIV/aids que estamos atendendo?
aquele que adquiriu o HIV por transmissão mãe-filho; pelo uso de drogas injetáveis; por transfusão sanguínea; por transmissão sexual; que descobriu ter o vírus durante a gravidez; ou que ainda desconhece seu diagnóstico porque a família não quer / não consegue contar;
aquele que reage a esta situação com raiva, revolta, desespero, tristeza, negação, passividade, ou que consegue lidar com sua condição de soropositivo;
aquele que não tem com quem contar ou o que tem o apoio da família e/ou de uma rede social;
aquele que faz parte de algum grupo social (escola, igreja, rua ...) ou não faz parte de nenhum grupo;
que se culpa ou culpa o outro;
que gosta de usar drogas;
que tem namorado(a), companheiro(a) e tem vida sexual

Qual é a maior preocupação deste adolescente?
fazer parte de um grupo, ter amigos, namorado(a);
a revelação do diagnóstico para os outros;
ser discriminado;
ser abandonado;
o medo da morte;
o exercício da sexualidade;
como viver uma relação afetiva, constituir família.

Conhecendo o adolescente, podemos contextualizar melhor nossas mensagens à sua vivência e torná-las mais eficazes. Na continuidade do processo de aconselhamento, aspectos como as dúvidas, o saber, crenças, valores, anseios e medos deste adolescente potencializam o diálogo, contribuindo para que a orientação de medidas preventivas seja mais compatível a sua realidade. É importante realizar uma avaliação de risco com o adolescente, ajudando-o a identificar as situações que vivencia em relação ao HIV/aids e outras DST, para evitar ou, pelo menos, minimizar os riscos, de acordo com as suas possibilidades e limites.
Cada adolescente é capaz de despertar diferentes sentimentos em nós, profissionais. Muitas vezes, nos sentimos impotentes quando os pais não permitem a revelação do diagnóstico ao adolescente, quando o adolescente não quer revelar o diagnóstico à parceria sexual. Ficamos ansiosos em abordar aspectos da sexualidade, nos sentimos culpados pela não adesão do adolescente a medidas de prevenção e ao tratamento e podemos até identificar o adolescente com nossos próprios filhos etc. Para o aconselhamento fluir, é importante que possamos, além de conhecer o adolescente, identificar nossos sentimentos e dificuldades durante o atendimento, evitando ruídos na comunicação e até iatrogenia. Compartilhar com a equipe nossas dúvidas e sentimentos pode nos ajudar na condução do atendimento. Neste sentido, entendemos que a construção de uma prática interdisciplinar é de suma importância para o aprimoramento da atenção. Contar com uma equipe interdisciplinar facilita a abordagem de questões complexas e, muitas vezes, difíceis de serem tratadas por um único profissional.
Também a participação da família, de pessoas mais próximas e dos parceiros/as sexuais do adolescente é fundamental para garantir a integralidade e a resolutividade da ação. Todos precisam de atenção e apoio emocional para se integrar ao processo de assistência do adolescente.
Por fim, cabe ressaltar o quanto é comum na assistência ao adolescente com HIV/aids, principalmente nos infectados por transmissão vertical, uma tendência a adiar a comunicação de sua condição sorológica. Muitos deles chegam a passar anos tomando anti-retrovirais sem saber explicitamente o seu diagnóstico. Com o argumento de "proteger" o adolescente, a família e os profissionais de saúde se tornam cúmplices no "silêncio" da questão, o que pode implicar a infantilização deste adolescente. Observamos aí uma enorme dificuldade dos pais e profissionais, adiando o enfrentamento desta situação e a abordagem de temas como sexualidade, reprodução, consumo de drogas, doença e morte, supostamente mais "reservados" à vida adulta.
É importante lembrar que, como qualquer pessoa, o adolescente tem direito de saber seu diagnóstico. O aconselhamento pressupõe uma postura de acolhimento e respeito por parte do profissional, para estabelecer o diálogo, apesar das diferenças. Trata-se de procurar uma comunicação clara e objetiva, dando instrumentos ao adolescente para cuidar da sua saúde com autonomia e liberdade.

Referências bibliográficas:
CN DST/Aids. Coordenação Nacional de DST e Aids, 1997. Aconselhamento em DST, HIV e Aids: Diretrizes e Procedimentos Básicos.
ABIA. Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids, 2003. Reflexões sobre Assistência à Aids – Relação Médico-Paciente, Interdisciplinaridade, Integralidade.
PAULO FREIRE. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. Editora Paz e Terra: 1996. p. 127-137.

Uma atenção especial ao adolescente soropositivo
Vera Lopes, Cledy Eliana, Suely Andrade

Adolescência como oportunidade
Mário Volpi

Os adolescentes nos serviços de saúde
Viviane M. C. Branco

A Consulta do adolescente e jovem
Luiz Cromack, Maria H. Ruzany, Eloisa Grossman, Stela Taquette

Como atender o adolescente soropositivo
Maria L. S. Cruz

Adolescente e o tratamento antiretroviral
Jorge A. Pinto

A diferença entre quem se infectou pelo HIV ou transmissão vertical ou horizontal
Marinella D. Negra

Revelação do diagnóstico e aconselhamento em HIV/Aids
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O atendimento em sala de espera
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Sexualidade, uso do preservativo e direito reprodutivo
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Alaíde E. da Silva, Edvaldo Souza

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Desafio para a prevenção
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