| Profissionais
de Saúde
A consulta do adolescente
e jovem

Luiza Cromack1, Maria Helena Ruzany2,
Eloísa Grossman3, Stella Taquette4
1 Ginecologista e obstetra. Mestrado em Saúde Coletiva pelo
NESC/UFRJ
2.Diretora do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente
(NESA)
3 e 4. Pediatras do NESA
Os adolescentes atravessam um processo dinâmico
e complexo de mudanças. As transformações do
corpo, o surgimento de novas habilidades cognitivas e seu novo papel
na sociedade são determinantes do questionamento dos valores
que os cercam. Muitas vezes se predispõem a novas experiências,
que podem ameaçar sua saúde, como por exemplo, exposição
a risco de acidentes, relações sexuais desprotegidas
e uso de drogas.
A assistência aos adolescentes e jovens nos serviços
de saúde não deve ser desvinculada do contexto em
que vivem. Houve mudanças significativas no perfil de morbi-mortalidade
neste grupo populacional, com aumento de agravos que poderiam ser
evitados por medidas de promoção de saúde e
prevenção, como a aids. Cabe aos profissionais de
saúde incluir medidas preventivas como componente fundamental
de sua prática clínica.
A equipe de saúde
A atenção integral à saúde de adolescentes
e jovens requer a abordagem de profissionais de diversas disciplinas
que devem interagir através de um enfoque multi ou interdisciplinar.
O trabalho multidisciplinar tem como principal característica
a prestação do serviço a uma mesma população
através da interconsulta ou referência. Essa atuação,
mesmo com uma boa interação entre os componentes da
equipe, é realizada de forma independente, às vezes
em diferentes locais e na maioria das situações com
a visão apenas de sua própria especialidade e/ou disciplina.
O trabalho interdisciplinar é centrado no sujeito, não
havendo limites disciplinares. Define-se a equipe interdisciplinar
como um conjunto de profissionais de diferentes disciplinas que
interatuam para prestar o atendimento ao cliente. Ele permite uma
discussão conjunta. As decisões são compartilhadas
e tomadas dentro das diferentes perspectivas, resultando em uma
proposta de intervenção mais eficaz.
A recepção
nos serviços de saúde
A acolhida aos adolescentes e jovens nos serviços deve ser
cordial e compreensiva, para que se sintam valorizados e à
vontade, buscando garantir sua adesão ao serviço,
que deve ser permanentemente acessível. Muitas vezes, eles
têm dificuldades em respeitar os horários de agendamento,
determinando que o serviço construa mecanismos de organização
mais flexíveis. Vale lembrar que toda a equipe está
envolvida neste acolhimento e deve estar capacitada para o mesmo:
segurança, porteiro, recepcionista, auxiliar de enfermagem
A adequação
do espaço físico
Em geral, os adolescentes preferem uma sala de espera exclusiva
para sua utilização nos horários de atendimento.
Esse espaço deve ser, acima de tudo, acolhedor e confortável
para os clientes e seus acompanhantes. Isto pressupõe locais
amplos, bem ventilados e limpos, adequados para o desenvolvimento
de atividades de grupo que podem ter múltiplos objetivos,
tais como a apresentação do serviço, integração
com a equipe e educação para a saúde. O acesso
a materiais educativos (livros, revistas, vídeos, programas
de informática) é de grande valor porque, além
de facilitar a troca de informações, ajuda a aproveitar
o tempo livre e permite o desenvolvimento de autonomia nas escolhas.
Divulgação dos serviços existentes e local
para distribuição de preservativos, bem como materiais
específicos sobre DST/aids e práticas sexuais mais
seguras devem estar disponíveis.
A entrevista –
características do profissional de saúde
Independentemente da razão que faz com que o adolescente/jovem
procure o serviço de saúde, cada visita oferece ao
profissional a oportunidade de explorar outros aspectos de sua vida,
contribuindo para a detecção, reflexão e resolução
de outras questões distintas do motivo principal da consulta.
A entrevista deste usuário e sua família ou acompanhante
é um exercício de comunicação interpessoal,
que engloba a comunicação verbal e a não-verbal.
Além das palavras, deve-se estar atento às emoções,
gestos, tom de voz e expressão facial do cliente. É
importante formular perguntas que auxiliem a conversação,
buscando compreender sua perspectiva, afastar preconceitos, evitando
fazer julgamentos, especialmente no que diz respeito à abordagem
de determinadas temáticas como sexualidade e uso de drogas.
O profissional de saúde não deve ficar restrito a
obter informações sobre o motivo focal que levou o
adolescente ao serviço de saúde, mas oferecer um espaço
de escuta, para que o adolescente se sinta à vontade para
trazer dúvidas e anseios, que muitas vezes escondem-se em
uma dor física.
As ações
preventivas como componentes da consulta
É importante trocar informações com os adolescentes
a respeito de seu crescimento físico e desenvolvimento psicossocial
e sexual. Deve ser discutida a importância de se tornarem
ativamente envolvidos em decisões pertinentes aos cuidados
de sua saúde, como uso de preservativos e outros métodos
para evitar gravidez, adesão a tratamentos etc. As consultas
são momentos privilegiados para o aconselhamento de práticas
sexuais responsáveis e mais seguras. Também se tornam
um espaço de esclarecimento de dúvidas, de conversa
sobre a importância do afeto, do cuidado e do prazer nas relações
e de aconselhamento sobre situações de risco para
abuso sexual.
O consumo de cigarros, álcool ou drogas ilícitas e
anabolizantes deve ser abordado nas consultas para reflexão
e encaminhamento. Outros assuntos importantes são as dificuldades
na escola e no trabalho. Essa abordagem deverá ser desenvolvida
de forma criativa, não se revestindo de um caráter
inquisitivo. Não há obrigatoriedade de esgotar todos
os tópicos em uma única ocasião.
A família
É importante estar disponível para atender o paciente
e sua família sem autoritarismos, promovendo uma relação
profissional horizontal. De forma ideal, devem existir dois momentos
na consulta: o adolescente sozinho e com os familiares/acompanhantes.
Entrevistar o adolescente sozinho cria a oportunidade de estimulá-lo
ao diálogo, buscando que se torne, de forma progressiva,
responsável por sua própria saúde e pela condução
de sua vida. A entrevista com a família é fundamental
para o entendimento da dinâmica e estrutura familiar e para
a elucidação de dados da história pregressa
e atual. Bem como inserir a família/cuidadores no acompanhamento
e apoio do adolescente, construindo um vínculo de parceria
entre equipe de saúde – familiares e adolescente. É
fundamental que o adolescente e a família tenham claro o
papel confidencial e sigiloso da consulta do adolescente, que é
o foco da equipe, sem o que ficaria comprometida toda a assistência.
Trabalho de grupo/dinâmicas
É bastante interessante que todo o serviço voltado
para adolescentes possa desenvolver práticas educativas de
grupo. Estas práticas visam proporcionar um espaço
de troca de vivências, no qual o adolescente possa sentir-se
à vontade para trazer suas dúvidas e compartilhá-las
com o grupo. Neste espaço, trabalha-se com o conhecimento
trazido pelos participantes buscando a construção
do conhecimento daquele grupo. Para isso, são utilizadas
técnicas lúdicas, tais como desenho, corte e colagem,
dramatização, exposição de vídeo
entre outras. A coordenação idealmente é realizada
por dois profissionais de saúde capacitados, de qualquer
categoria profissional. O adolescente sugere os temas a serem discutidos
e estabelece conjuntamente com a coordenação as normas
de funcionamento do grupo. São temas que sempre surgem: conhecimento
do corpo, gênero, sexualidade, namoro, masturbação,
virgindade, contraceptivos e DST/aids.
O grupo deve ter duração máxima de duas horas
para não perturbar a rotina de adolescentes e cuidadores,
e a confidencialidade é um ponto a ser marcado. É
uma atividade de que os adolescentes gostam muito e que complementa
o trabalho da consulta individual. O mesmo trabalho pode também
ser realizado com familiares e cuidadores.
Conclusão
O momento da consulta dos adolescentes e jovens, bem como das atividades
de grupo, deve ser aproveitado pela equipe de saúde para
a troca de informações. A equipe deve ter em mente
que, tratando-se de uma população em constante mudança,
é necessário que, para aumentar a efetividade dos
serviços, exista uma preocupação de conhecer
o que está em transição e os novos costumes
adotados.
Outra questão, que muitas vezes os serviços evitam
adotar, é a maior participação do usuário
na gestão e na atenção prestada. Com esse grupo
etário, o distanciamento poderá significar a pouca
compreensão das normas e condutas, diminuindo a aderência
ao serviço e às atividades planejadas. É muito
importante que o adolescente sinta que faz parte daquele serviço
e ajude a construí-lo. |