Profissionais de Saúde
Adolescer na Casa de
Apoio

Padre Júlio Lancelotte
Responsável pela Casa Vida 1 e 2
Adolescer na casa de apoio é, em primeiro
lugar, adolescer no mundo concreto em que se vive, como acontece
com todos os outros adolescentes. A síndrome da adolescência
tem suas características próprias e circunstanciadas
para todos os adolescentes, independentemente de viverem ou não
em Casas de Apoio por serem HIV positivos.
Antes de serem HIV positivos, eles são adolescentes, e isso
tem que ficar muito claro para nós, que somos seus responsáveis
e educadores. A questão de serem jovens soropositivos se
compõe com a questão da adolescência. Essa composição
nos questiona trazendo desafios que supõem ação
e reflexão constantes (como já seria o caso da adolescência
comum) e uma clareza de propósitos e métodos, com
o estabelecimento de vínculos positivos e duradouros.
A experiência mostra que mais problemático do que ser
HIV positivo é ter que morar em uma Casa de Apoio. O HIV
ninguém vê e a Casa de Apoio sim, ligando uma coisa
à outra. Morar em uma Casa de Apoio acaba explicitando socialmente
o HIV: "Moro em uma Casa de Apoio porque sou HIV positivo".
A responsabilidade de gerenciar e ambientar uma Casa de Apoio para
Adolescentes HIV positivo é uma tarefa complexa e desafiadora.
Como proporcionar o desenvolvimento de valores? Estabelecer limites,
responsabilidades e co-responsabilidades? Como educar para a autonomia
e a cidadania?
A Casa de Apoio favorece a proteção, a aderência
ao tratamento e a qualidade de vida em relação à
alimentação, higiene, cuidados de enfermagem e detecção
precoce de intercorrências clínicas, mas por outro
lado pode favorecer a dependência e o afastamento da realidade
da vida, como saber o custo para manter uma casa e outras questões
do cotidiano da vida. É preciso levar em conta, porém,
o mundo próprio do adolescente que quer testar limites e
estabelecer sua própria liberdade.
A Casa de Apoio com adolescentes tem problemática própria
que sugere a necessidade imperiosa da co-educação,
da participação nas atividades da vida diária,
como limpeza, cuidados com as roupas de uso pessoal (como lavar
e passar), com os estudos, as tarefas escolares e a freqüência
à escola, a profissionalização e o primeiro
emprego.
Os adolescentes não podem viver em grupos numerosos, pois
isso dificulta o atendimento mais personalizado, além do
acompanhamento psicológico e outras necessidades que vão
surgindo de maneira acelerada, como psiquiatria, neurologia, fonoaudiologia,
fisioterapia, e outras que fazem parte da rotina ambulatorial, como
consultas e coletas para exames. A adolescência traz necessidades
específicas, como ginecologia e urologia, as questões
da sexualidade, sociabilidades, contatos com amigos e amigas e com
a família.
Adolescer na Casa de Apoio exige do adulto presença constante
e diálogo permanente para que o adolescente possa enfrentar
a perda e o luto, as fantasias e ansiedades, a busca de modelos
em tempo de instabilidade, o acesso ao mundo da informação
globalizado, enfim, tudo aquilo que pai e mãe de filhos e
filhas adolescentes têm que vivenciar.
Os pais e mães biológicos podem dizer que são
marinheiros de primeira viagem; os responsáveis por uma Casa
de Apoio, não.
As Casas de Apoio são fiscalizadas pelo Judiciário,
Ministério Público, Conselhos Municipais e Tutelares,
pelos financiadores, parceiros e doadores e têm que se explicar
em várias instâncias.
Como explicar ou justificar que um ou uma adolescente abrigada em
Casa de Apoio está usando drogas ilícitas? Como explicar
uma gravidez ou paternidade precoce ou doenças sexualmente
transmissíveis?
As Casas de Apoio com adolescentes têm que administrar o aproveitamento
escolar, as questões afetivas e emocionais, a aderência
ao tratamento, o exercício da sexualidade, a saúde
mental, a cidadania, a integração comunitária
e familiar, executar as sugestões das teorias jurídicas,
dos psicólogos e terapeutas e, sobretudo, administrar os
sonhos e desejos dos adolescentes que têm baixa resistência
à frustração.
A cobrança é grande, forte e contundente, mas poderíamos
concluir que o amor pode ser mais. |