| Profissionais de Saúde
Crianças e Adolescentes
no Fórum de ONG/AIDS - SP
Articulação, formação e construção
de caminhos

Elizabete Franco Cruz
Psicóloga, doutoranda GEISH/FE/UNICAMP, assessora de projetos
e
ativista do GIV Grupo de Incentivo à Vida, coordenadora do
GT de
crianças e adolescentes do Forum de ONG AIDS de São
Paulo e Profa.
Universidade São Marcos
No ano de 2001, o Fórum de ONG aids de São
Paulo criou um Grupo de Trabalho voltado para a discussão
da problemática de criança e adolescente vivendo e
convivendo com HIV/aids. Esse grupo é formado por ONG aids
vinculadas ao Fórum que desenvolvem ações de
prevenção às DST HIV/aids e de apoio a crianças
e adolescentes vivendo e convivendo com HIV/aids.
Uma das iniciativas do grupo foi a realização do Projeto
Encontro, que articulou diferentes atores da sociedade civil (incluindo
crianças e adolescentes).
O Projeto Encontro teve como objetivo o empoderamento e melhoria
da qualidade de vida de crianças e adolescentes vivendo e
convivendo com HIV/aids no estado de São Paulo. Suas metas
foram contribuir para o fortalecimento de crianças e adolescentes
que vivem e convivem com HIV/aids no estado de São Paulo
para o enfrentamento da vida e da epidemia; incrementar a qualidade
de atenção oferecida por profissionais da saúde,
educação, voluntários e familiares de crianças
e adolescentes vivendo e convivendo com HIV/aids; combater o preconceito,
estimular a inclusão social de crianças e adolescentes
vivendo e convivendo com HIV/aids.
Para atingir suas metas, o projeto propôs, no primeiro ano
do seu desenvolvimento, um conjunto de atividades: Festa Junina
com ênfase na diversidade, Workshop para profissionais e voluntários,
Workshop para familiares e cuidadores e Encontro de Crianças
e Adolescentes Vivendo e Convivendo com HIV/aids.
O projeto reuniu cerca de 700 pessoas na festa junina, 100 profissionais
e voluntários no workshop, 350 crianças (40 % soropositivas)
e 150 familiares no dia do Encontro. Contamos com a contribuição
de 70 voluntários, que ajudaram no desenvolvimento das atividades.
Esta iniciativa impactou positivamente a vida de crianças
e adolescentes vivendo com HIV/aids de diferentes maneiras, mas
principalmente através:
n Dos familiares, que tiveram espaço para repensar suas relações
com crianças e adolescentes, principalmente percebendo a
importância do diálogo e do respeito.
Exemplo: uma mãe chorou no intervalo do almoço porque
percebeu que não vinha tratando sua criança com respeito
e franqueza, estava emocionada por descobrir que podia estabelecer
a relação com sua filha baseada em novos parâmetros.
Além disso, percebeu que sua dificuldade era compartilhada
por muitas pessoas.
• Dos profissionais
e voluntários, que tiveram oportunidade de rever sua prática
e ficaram sensibilizados para a humanização do atendimento
e maior respeito com as perspectivas e direitos das crianças
e adolescentes. O depoimento de um profissional na ficha de avaliação
do workshop dizia o seguinte: "trabalho com aids há
seis anos e nunca fiquei tão sensibilizado para a questão
da criança e do adolescente como fiquei neste encontro".
• Do exemplo de solidariedade
oferecido pelos voluntários.
• Da convivência entre crianças
e adolescentes soropositivos e soronegativos e da oportunidade de
discussões sobre convivência, prevenção,
solidariedade e amizade.
• Da vivência (e não
do discurso) da diversidade num espaço onde reunimos pacífica
e respeitosamente adultos, crianças, adolescentes, velhos,
soropositivos, soronegativos, familiares, voluntários, negros,
brancos, asiáticos, homens, mulheres, homossexuais, heterossexuais
de diferentes pertencimentos econômicos.
• Da construção
de um espaço onde pessoas vivendo com aids foram tratadas
como sujeitos com direitos e dignidade.
Além disso, todos nós – crianças, adolescentes
e adultos – vivemos com emoção a confecção
de um laço gigante preenchido com a produção
artística das crianças e adolescentes.
Quem esteve presente e observou o cuidado e carinho que as crianças
demonstravam quando seguravam seus "paninhos" para colocar
no laço, sabe que o projeto cumpriu seu papel despertando
a solidariedade e respeito com o outro.
Em 2002, nosso ritmo foi um pouco menor, em decorrência de
problemas enfrentados pelas principais lideranças do grupo;
mesmo assim, conseguimos repetir a festa junina e manter as reuniões
mensais.
No ano de 2003, novamente voltamos com força total. Uma das
avaliações que fizemos após o Projeto Encontro
foi a necessidade de ampliar a formação técnica
do movimento social, com vistas à melhoria da qualidade do
atendimento. Neste sentido, estabelecemos uma parceria com o GEISH-Grupo
Interdisciplinar de Sexualidade Humana da Faculdade de Educação
da UNICAMP e, sem nenhum financiamento, viabilizamos um curso mensal
para representantes de 15 instituições ligadas ao
Fórum. Nestes encontros, temos realizado leituras e debates
sobre temas como concepções de infância, adolescência,
sexualidade, relações de gênero, participação
e ações educativas junto à população
atendida.
O curso contribuiu para a adesão de mais pessoas ao GT, para
o fortalecimento do grupo e permitiu que pudéssemos delinear
as iniciativas para 2004, quando manteremos o curso, desenvolveremos
novamente o Encontro para crianças e adolescentes, os workshops
para profissionais e voluntários, a festa junina, um seminário
sobre instituições de apoio para crianças e
adolescentes e uma publicação.
A experiência do GT tem sido enriquecedora em diferentes aspectos.
Um deles é comprovar o envolvimento, compromisso e seriedade
de pessoas e entidades da sociedade civil. Outro ponto fundamental
é observar que, paulatinamente, vamos conseguindo contribuir
para uma mudança de mentalidades, tentando fazer com que
as ações caminhem de uma perspectiva predominantemente
assistencialista para uma perspectiva de direitos, que inclui a
formação técnico política dos trabalhadores
e voluntários deste campo. Fundamental ainda tem sido o percurso
para subsidiar a revisão das concepções de
infância e adolescência e o incentivo à participação
da população infanto-juvenil nas ações
e decisões.
No entanto, nossa maior vitória é que conseguimos
manter uma articulação de ONG e dar destaque ao tema
da infância e adolescência na pauta política
do movimento de luta contra a AIDS, no Estado de São Paulo.
Ainda é pouco, porque temos consciência dos muitos
desafios que temos pela frente, incluindo tocar no que aparentemente
é intocável: a perspectiva adultocêntrica que
ainda vigora nos serviços de saúde, ONGs, escolas,
comunidades – e ampliar o raio de ação e articulação
com os outros fóruns do país. O caminho está
sendo trilhado, e, como caminhantes, estamos acreditando que o caminho
se faz ao caminhar... |