Profissionais de Saúde
Como atender o adolescente
soropositivo

Maria Letícia Santos Cruz
Médica Pediatra e Infectologista do Serviço de Doenças
Infecciosas do Hospital dos Servidores do Estado do RJ
Poucas são as unidades que possuem serviço
ou setor voltado para a assistência ao adolescente. Normalmente,
os serviços de Medicina do Adolescente estão em hospitais
universitários e a maioria dos programas de aids não
conta com essa opção de assistência.
Para muitos profissionais de saúde, os adolescentes são
pessoas desagradáveis, mal educadas e intratáveis.
A intolerância e o despreparo de muitos profissionais dificultam
e podem inviabilizar o acesso do jovem aos cuidados necessários.
O serviço que recebe pessoas soropositivas entre 10 e 20
anos deve contar com profissionais que gostem de trabalhar com adolescentes
e que estejam preparados especificamente para acompanhar portadores
de HIV. A identificação de profissionais com essas
características é o ponto de partida para o trabalho.
A complexidade da demanda faz com que seja indispensável
o trabalho em equipe. Não queremos aqui propor nenhuma fórmula
ou composição formal de equipe, mas pelo menos duas
pessoas precisam estar envolvidas e disponíveis para a assistência
a adolescentes HIV +. Podem ser dois médicos, um médico
e um enfermeiro, um médico e um psicólogo ou assistente
social. O ideal é que essas pessoas estejam articuladas às
diferentes formas de assistência que podem ser necessárias
(SAE, Hospital Dia, internação e atendimento domiciliar)
e que mantenham o contato com os pacientes mesmo quando eles forem
transferidos temporária ou definitivamente para esses serviços.
O objetivo deve ser prestar assistência integral ao adolescente
HIV+ desde o momento do diagnóstico até o fim da adolescência
(idade variável) quando ele poderá ser transferido
para um programa de aids geral, dentro da mesma unidade e às
vezes com a mesma equipe.
A experiência
do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro
O atendimento a adolescentes soropositivos no Hospital dos Servidores
do Estado ocorre no serviço de Doenças Infecciosas
e Parasitárias (DIP). O hospital não conta com serviço
específico para adolescentes. Definimos, no ambulatório
geral do DIP, um horário específico para atendê-los.
A equipe é composta por uma médica infectologista
e uma pediatra, uma psicóloga e duas enfermeiras. O serviço
de DIP conta com uma assistente social e com setores de SAE, internação,
Hospital Dia e atendimento domiciliar.
Os adolescentes têm consultas mensais no DIP, geralmente no
dia em que é desenvolvida uma atividade em grupo. O início
dos anti-retrovirais é adiado enquanto o estado clínico
e imunológico (contagem de células CD4) permitirem.
Sempre que possível, optamos por usar esquemas simplificados,
com drogas que possam ser usadas uma ou duas vezes ao dia. Todos
são tratados de acordo com o Guia de Tratamento Clínico
da Infecção pelo HIV em adultos e adolescentes do
Programa Nacional de DST/aids do Ministério da Saúde.
No serviço de DIP do Hospital dos Servidores do Estado, são
atendidos adolescentes provenientes de dois programas: aids pediátrico
e ambulatório de prevenção de transmissão
vertical do HIV. Apesar de terem em comum o vírus, são
populações com características bem distintas.
Da Imunopediatria para o DIP
Os pacientes da Imunopediatria normalmente já são
acompanhados naquele setor há alguns anos e estão
habituados ao ambulatório e enfermaria de Pediatria. Os pediatras,
muitas vezes, adiam ao máximo a transferência desses
pacientes para o programa de adolescentes. São jovens que,
em alguns casos, apresentam atraso no desenvolvimento somático
e emocional decorrentes da infecção e de situações
de perdas associadas ao HIV. A transferência geralmente só
se concretiza quando se torna inevitável, como na necessidade
de uma internação hospitalar que não pode mais
ocorrer na enfermaria de pediatria. Nessas situações,
a internação tem sido trabalhada pela equipe como
uma oportunidade de aproximação do jovem com o serviço
do DIP, devido à possibilidade de contatos diários
entre o paciente e diferentes profissionais. Esses pacientes geralmente
já estão em uso de anti-retrovirais e nessa ocasião
a administração das drogas deve ser revista pela equipe,
que identifica quem é o responsável por "se lembrar"
dos remédios. Normalmente um adulto ou irmão mais
velho tem essa responsabilidade e o adolescente pode ou não
estar comprometido com seu tratamento. Durante esses primeiros contatos,
o comprometimento com o próprio tratamento é estimulado.
Outro problema com os adolescentes provenientes do programa de aids
pediátrico é que eles, por vezes, chegam ao nosso
ambulatório ainda sem conhecer sua condição
de portador de HIV.
A revelação do diagnóstico pode levar bastante
tempo ou se completar em poucas consultas. Tudo depende da resposta
do adolescente, à medida que damos as informações.
Logo nas primeiras consultas, conversamos na presença dos
pais sobre o que o novo paciente sabe a respeito do problema que
o traz tão freqüentemente às consultas. Deixamos
claro para os pais que vamos precisar informar o adolescente sobre
sua condição de HIV + . Nem sempre os pais aceitam
bem a idéia neste momento. Às vezes, a família
precisa de um tempo antes da revelação.
Gravidez precoce e
HIV
As meninas provenientes do ambulatório de prevenção
de transmissão vertical do HIV (onde a cada ano cresce o
número de gestantes infectadas entre 13 e 18 anos) chegam
ao serviço precisando lidar com dois fatos novos em suas
vidas: a maternidade precoce (apesar de algumas vezes desejada e
até planejada) e a infecção pelo HIV. O serviço
oferece testagem para os parceiros das gestantes e aqueles com diagnóstico
positivo para o HIV que estão na mesma faixa etária
das parceiras também são admitidos para acompanhamento.
Grupos de discussão
Desde o início, tivemos a proposta de formar um grupo de
adolescentes que favorecesse a discussão e a troca de experiências
entre jovens com o mesmo "desafio". Mas o grupo demorou
mais de oito meses para se formar. Durante os primeiros meses, o
encontro dos jovens ocorreu apenas na sala de espera do ambulatório,
pois a freqüência era muito irregular e a resistência
ao acompanhamento era patente. Apesar de conversarem muito pouco
entre si, eles perceberam que aquele espaço/horário
era destinado a eles e que o serviço os estava acolhendo.
Nesses primeiros meses, eles tiveram acesso a atendimentos individuais
com a médica, a psicóloga e a enfermeira. Com o tempo,
esses encontros informais facilitaram a formação do
grupo.
Desde que tiveram início, em 2002, os encontros em grupo
têm acontecido regularmente e são agendados uma vez
por mês. Para ser convidado a participar do grupo, o adolescente
precisa conhecer seu estado de portador do HIV.
Os assuntos tratados no grupo são sugeridos pelos adolescentes.
O termo HIV surgiu desde o primeiro encontro e raramente deixa de
ser o centro das discussões. Os principais temas abordados
em grupo têm sido: preconceitos, medo de contar o diagnóstico
a familiares e amigos, contar ou não contar para os namorados,
o impacto do diagnóstico em suas vidas, o que significam
os exames que fazem periodicamente (CD4 e carga viral) e a possibilidade
do vírus se tornar resistente aos medicamentos.
O entrosamento da equipe de profissionais é fundamental para
o bom andamento deste trabalho. Procuramos afinar o conhecimento
dos profissionais sobre adolescência e discutir os casos regularmente.
Algumas noções sobre aspectos práticos ao longo
da adolescência podem ser úteis.
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