| Profissionais
de Saúde
Uma atenção
especial ao adolescente soropositivo

Vera Lopes1, Cledy Eliana2 e Suely Andrade3
1. Antropóloga, Assessora Técnica da Unidade de Prevenção/PN
DST Aids
2. Médica, Assessora técnica da Unidade da UDAT/PN
DST Aids
3. Psicóloga, Assessora técnica da SCDH/PN DST Aids
O Programa Nacional de DST/aids desenvolveu, em 2003, uma ampla
discussão sobre a situação dos adolescentes
vivendo com HIV no país e sua rede de apoio social. A partir
de um grupo de profissionais de saúde e representantes de
ONGs que, com sua larga experiência de trabalho junto a adolescentes,
expressou diferentes preocupações no sentido de ampliar
este trabalho, foi desencadeada uma série de encontros envolvendo
adolescentes de algumas cidades e profissionais de todos os estados,
com o objetivo de juntos elaborarmos diretrizes e propostas dirigidas
ao trabalho com os adolescentes vivendo com HIV.
Mais da metade das novas infecções por HIV que ocorre
na atualidade afeta jovens de 15 a 24 anos de idade. No Brasil,
estima-se que, a cada ano, quatro milhões de jovens tornam-se
ativos sexualmente. Segundo a BEMFAM (DHS 1996), a idade mediana
da primeira relação sexual para homens é de
14 anos, e para as mulheres, 15 anos. O início precoce da
vida sexual pode ser considerado um agravante para o comportamento
de risco frente ao HIV/ aids. Em alguns países da América
Latina e Caribe, pesquisas revelam um baixo índice do uso
freqüente do preservativo entre os jovens de baixa escolaridade
e um alto índice de gravidez e abortos realizados em condições
de alto risco, entre pré-adolescentes e adolescentes.
Na população brasileira, desde 2000, estão
ocorrendo mais casos de aids em meninas do que em meninos, com idade
entre 13 a 19 anos. No período de 2000 a 2002, foram notificados
531 novos casos de aids em meninas de 13 a 19 anos, contra 372 casos
em rapazes da mesma idade, mostrando uma proporção
de dois novos casos em mulheres para um caso em homens, logo no
início da atividade sexual. Na faixa etária subseqüente
(de 20 a 24 anos), a relação praticamente se igualou,
com 2.346 casos em homens e 2.299 casos em mulheres nos últimos
dois anos.
O número elevado de ocorrências de gravidez na adolescência
em jovens entre 10 e 19 anos (210.946 partos e 219.834 casos de
abortos atendidos no Sistema Único de Saúde - SUS,
no período de 1999 até abril deste ano), o aumento
da ocorrência de doenças sexualmente transmissíveis
e a intensificação do consumo de drogas lícitas
(álcool, cigarro e tranqüilizantes) e ilícitas
(maconha, cocaína e crack) – com a agravante do uso
de drogas injetáveis com compartilhamento de agulhas e seringas
– ajudam-nos a entender melhor porque os jovens brasileiros
são, em cada vez maior número, vulneráveis
à infecção pelo HIV/aids.
Caracteriza-se, ainda, como fator de vulnerabilidade dos jovens
frente ao HIV/aids, a violência sexual praticada contra adolescentes,
incluindo o abuso sexual e a exploração sexual comercial.
A Rede Feminista de Saúde identificou que 48% dos atendimentos
nos serviços de abortos previstos por lei são de jovens
entre 10 e 19 anos.
Educar os jovens sobre os riscos de transmissão do HIV, apoiá-los
na construção de habilidades para negociar, resolver
conflitos e ter opiniões críticas melhora a confiança
em si mesmos e aumenta a capacidade de tomar decisões responsáveis
para se proteger e motivar seus parceiros e colegas para que tomem
decisões seguras. Não é diferente para os adolescentes
vivendo com HIV.
Como conseqüência do uso da terapia anti-retroviral no
Brasil, atualmente, chegamos à primeira geração
de adolescentes vivendo com HIV que se enquadram na categoria de
transmissão vertical. São 1675 pessoas entre 10 e
19 anos fazendo uso da terapia anti-retroviral no país. No
entanto, ainda nos deparamos com muitas barreiras que contribuem
para uma baixa adesão ao tratamento em diferentes regiões
do país.
Daí a importância da abordagem integral do adolescente,
para além do tratamento e administração da
terapia anti-retroviral.
O PN DST/Aids tomou a iniciativa de ouvir os adolescentes sobre
o atendimento nos serviços de saúde e na rede de apoio
social para orientar a formulação de diretrizes do
Ministério da Saúde, considerando as demandas dos
adolescentes. Para tanto, foram realizadas 8 oficinas de trabalho
com os adolescentes em 8 cidades, além de três encontros
macro regionais, nos quais estiveram presentes representantes de
todas as unidades federadas: profissionais que atuam em serviços
de saúde, profissionais da área da saúde do
adolescente, ONGs, adolescentes vivendo com HIV/aids e adolescentes
em situação de risco social. Finalmente, um fórum
nacional alinhavou propostas para serem discutidas com outros programas
governamentais, já que a atenção integral ao
adolescente depende de políticas intersetoriais.
As falas dos adolescentes vivendo com HIV nos mostraram avanços
alcançados e, ao mesmo tempo, muitas necessidades e lacunas,
tal como consta no documento preliminar do Fórum Nacional:
• Os adolescentes com vida sexual
ativa têm tido acesso ao preservativo nos serviços
de saúde;
• Os adolescentes não têm
espaços coletivos de interlocução para tratar
de temáticas como a sexualidade, saúde reprodutiva,
acesso e permanência na escola, troca de vivências e
suas percepções sobre as instituições
de apoio social;
• Os cuidadores/ familiares destes
adolescentes têm pouca ou nenhuma oportunidade de discutirem,
em espaços coletivos, suas dúvidas e alternativas
para apoiarem adequadamente os adolescentes;
• A maioria dos adolescentes que
vivem em instituições de apoio, embora reconheçam
e mantenham vínculo afetivo com estes cuidadores, têm
expectativa de viverem com maior autonomia para tomada de decisões
e em ambiente familiar – com madrinha, padrinho, avós,
tios, etc;
• A revelação do
diagnóstico é uma grande dificuldade para profissionais
de saúde e familiares – sendo que muitos adolescentes,
embora "desconfiem" que são portadores do HIV,
não tiveram ainda seu diagnóstico explicitado. A maioria
destas situações foi constatada entre os adolescentes
da categoria de transmissão vertical;
• Muitos adolescentes têm
tomado conhecimento do diagnóstico durante internação,
na transmissão vertical ou no pré-natal, quando da
transmissão sexual;
• Estrutura dos serviços
inadequada para atendimento dos adolescentes – espaços
pouco humanizados e pensados para os adolescentes – ou são
de pediatria ou são de adultos;
• Falta de articulação
dos serviços especializados de aids e serviços de
saúde do adolescente;
• Reconhecem nos profissionais
de saúde um bom acolhimento individual e apontam para a necessidade
de serem atendidos por diferentes profissionais, como psicólogos
e assistentes sociais;
• Discriminação
– receio de revelar seu estado sorológico a amigos,
receio do isolamento, referência a situações
de discriminação preconceito na escola.
Enfim, propor atenção especial para o adolescente
soropositivo nos remete à necessidade de avaliar o quanto
temos dedicado de atenção ao aolescente de um modo
geral… Como os profissionais da saúde têm convivido
com as especificidades expressas neste período da vida.
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